Personagem 'Holden Caulfield', livro 'O apanhador no campo de centeio', de J. D. Salinger

O apanhador no campo de centeio‘ é um clássico da literatura americana. Lançado em 1951, a saga de Holden Caulfield inspirou uma geração de jovens da era anterior ao rock.

Holden Caulfield, o adolescente protagonista de “O apanhador no campo de centeio”, diz a certa altura que queria ser surdo-mudo, pois “desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém”. De certa forma, o autor da história, que se tornou um clássico desde seu lançamento, tomou para si o desejo do personagem. Em 1953, Jerome David Salinger renunciou às glórias literárias e à vida agitada em Nova York para se recolher a uma casa no topo de uma isolada montanha em Cornish, no estado americano de New Hampshire. Por algum tempo continuou escrevendo, mas, desde o início dos anos 60, nem isso. Até a publicação de suas cartas por um biógrafo ele conseguiu sustar na justiça. Os que insistiam em procurá-lo encontravam uma muralha de pedra e a má vontade dos vizinhos. É claro que, diante disso, a lenda de J.D. Salinger só fez crescer. O autor morreu, ainda recluso, em 27 de janeiro de 2010.

Holden Caulfield se tornou ídolo da geração de jovens rebeldes da era pré-rock’n’roll. Conta-se, inclusive, que o jovem Robert Zimmerman, futuro Bob Dylan, fugiu de casa meia dúzia de vezes inspirado nele. Como disse um dos críticos conservadores que tentaram destruir “O apanhador no campo de centeio” logo na época de seu lançamento, “um livro assim pode multiplicar esse tipo (de comportamento)”. Holden não chega a ser exatamente um delinquente juvenil, mas passa raspando.

O retrato que Salinger pinta da adolescência é vivo, cruel, enternecedor, desconcertante, poético — tudo ao mesmo tempo. Ninguém diria que, ao escrever o livro, ele estava bem longe de ser um teenager voluntarioso e ingênuo: aos 32 anos, já tinha participado como soldado do desembarque das tropas aliadas na Normandia, no Dia D, e acumulara uma razoável experiência como colaborador da revista “New Yorker”. Mas foi como se estivesse estreando ali: o livro vendeu 15 milhões de exemplares em apenas dois anos e tornou Salinger uma estrela.

Leia alguns excertos do livro:

“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, começa a sentir saudade de todo mundo.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Não importa que seja uma despedida ruim ou triste, mas, quando saio de um lugar, gosto de saber que estou dando o fora. Se a gente não sabe, se sente pior ainda.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“- E a vida é um jogo, meu filho, a vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras.
– Sim, senhor, sei que é. Eu sei.
Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo – concordo plenamente. Mas se a gente está do outro lado, onde não tem nenhum cobrão, então que jogo é esse? Qual jogo, qual nada.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

§

“Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler e fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Tem gente que passa dias procurando alguma coisa que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

§

“Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Só porque uma pessoa morreu não quer dizer que a gente tem que deixar de gostar dela… Principalmente se era mil vezes melhor do que as pessoas que a gente conhece e que estão vivas e tudo.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

§

“Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles mostruários enormes de vidro e deixá-las em paz. Sei que isso não é possível, mas é uma pena que não seja. De qualquer maneira, continuei a pensar em tudo isso enquanto ia andando.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia… Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

§

“Esse é que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve “foda-se” bem na cara da gente.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo de sujeito que está pouco ligando em perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo muito quando perco alguma coisa.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

“O homem imaturo é aquele que quer morrer gloriosamente por uma causa. O homem maduro é aquele que contenta-se em viver humildemente por ela.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Não é tão mal assim quando tem sol, mas o sol só aparece quando cisma de aparecer.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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“Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não pode lhes proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não poderia lhes proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes de começá-la de verdade.”
– J. D. Salinger, do livro “O apanhador no campo de centeio”. [tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster]. 18ª ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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J.D. Salinger

Primeira publicação no Brasil:
“‘O apanhador no campo de centeio’ foi publicado no Brasil, em 1965, a Editora do Autor tinha três sócios: os escritores Rubem Braga e Fernando Sabino, e o advogado Walter Acosta. O título escolhido para o livro foi “A sentinela do abismo”, muito diferente do original, porém bastante fiel à passagem em que Holden fala sobre querer ser um “apanhador” num campo de centeio (a passagem é bastante tocante e prefiro não dar detalhes sobre ela). Por sorte, Salinger havia imposto, depois de traduções bem peculiares do título em outras línguas, a condição de que o título não fosse outro senão a tradução fiel do original: ‘The catcher in the rye’.”
– Marco Antonio de Carvalho, no livro ‘Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar’.

Por que ler J.D. Salinger?

J. D. Salinger foi um dos maiores escritores do século 20: A afirmação é grandiosa, mas justa. Salinger teve um enorme impacto na literatura norte-americana, influenciando autores como Philip Roth, John Updike e Harold Brodkey.

Mais do que isso, Salinger impactou a cultura do século 20 por meio de personagens que entraram para a história da literatura, como Holden Caulfield, o adolescente que é narrador e protagonista de “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951)

Salinger foi um grande contador de histórias: Salinger publicou quatro livros – além de “O Apanhador”, “Nove Histórias” (1953), “Franny e Zoey” (1961) e “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour: Uma Apresentação” (1963)

“Ele era um mestre dos contos de ficção, um excelente contador de histórias, alguém que simplesmente escrevia melhor do que a grande maioria das pessoas”, afirmou o doutor Will Hochman, professor da Universidade Estadual do Sul de Connecticut e autor de “Letters to J.D. Salinger”. “Seu trabalho é atemporal. Geração após geração encontra novos significados em seus livros.”

“Salinger não era um homem público, mas entendia muito bem as condições humanas. Quando lemos seus livros, sentimos que ele nos conhece e que nós o conhecemos”, afirmou Hochman.

Para Slawenski, a beleza do trabalho do escritor está na “ambiguidade”. “Ele nunca força significados aos leitores. Ao contrário: dá a eles controle suficiente para interpretar suas histórias como julgarem adequado”, disse o biógrafo. “Isso muitas vezes permite que os leitores sintam-se próximos às histórias e que vejam a si mesmos. Salinger alcançou um tipo de intimidade com o leitor que muitos escritores ainda lutam para conseguir.”

“É impossível entendê-lo sem antes examinar a obra”, resumiu Slawenski. “O trabalho de Salinger era sua vida.”
. Excertos do texto “Por que ler J.D. Salinger?”, de Luisa Pécora. em ‘Último Segundo’. Leia mais AQUI!

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