Ilustração: Catrin Welz-Stein

A Insustentável Leveza do Ser é um livro em que o desenvolvimento dos enredos erótico-amorosos se conjuga com extrema felicidade à descrição de um tempo histórico politicamente opressivo e à reflexão sobre a existência humana como um enigma que resiste à decifração – o que lhe dá um interesse sempre renovado.

A história se passe em Praga (atual República Checa) e em Zurique (Suíça), no ano de 1968, atravessando algumas décadas de forma atemporal para mostrar os altos e baixos, descobertas e constatações dos quatro personagens que a protagonizam: Tomás, Teresa, Sabina e Franz.

O livro é sobretudo um diálogo sobre o significado da vida, do que está acima de nós e os grande esforço e observações necessários a entender o quê e por que somos aquilo que somos. Daí deriva o termo “existencialista” e a narração de acontecimentos cotidianos.

“O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação – as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver”
– Ítalo Calvino, escreveu sobre o romance. fonte: Cia das Letras.

Abaixo alguns excertos do livro:

“O eterno retorno é uma idéia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
O mito do eterno retorno afirma, por negação, que a vida que desaparece de uma vez por todas, que não volta mais, é semelhante a uma sombra, não tem peso, está morta por antecipação, e por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa atrocidade, essa beleza, esse esplendor não têm o menor sentido.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós as conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza?”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em pares de contrários: a luz/a escuridão; o grosso/o fino; o quente/o frio; o ser/o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Exceto em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?
Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não teria razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

“Nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“E, de novo, veio-lhe à cabeça uma idéia que já conhecemos: A vida humana só acontece uma vez e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos é dada uma segunda, uma terceira, uma quarta vida para que possamos comparar decisões diferentes […]”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona de seu cérebro. Tereza ocupava como déspota sua memória poética e dela varrera todos os traços das outras mulheres. […] O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na pista do tempo, e pensamos que a partir dessa linha o sofrimento presente deixará de existir”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas porque sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“É por isso que a palavra compaixão em geral inspira desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Acordou e viu que estava só em casa.
Saiu e tomou a direção do cais. Queria ver o Vltava. Queria sentar-se em sua margem e olhar a água, pois a visão de água fluindo acalma e cura. O rio corre de século em século, e as histórias dos homens se desenrolam na margem. Acontecem para ser esquecidas amanhã e para que o rio não pare de correr”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“Quem vive no exterior caminha num espaço vazio acima do solo sem a rede de proteção que o país de origem estende a todo ser humano, onde ele tem família, colegas, amigos, e onde é compreendido sem dificuldade no idioma que sabe falar desde a infância.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àquele que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

§

“O tempo humano não gira em círculos, mas avança em linha reta. É por isso que o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo de repetição.”
– Milan Kundera, do livro “A insustentável leveza do ser”. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Milan Kundera – foto: Catherine Hélie

* Sobre o autor: Milan Kundera nasceu em Brno, na República Tcheca, em 1929, e emigrou para a França em 1975, onde vive como cidadão francês. Romancista e pensador de renome internacional, é autor, entre outras obras, de A insustentável leveza do ser, A brincadeira, Risíveis amores, A identidade, A ignorância, A cortina e O livro do riso e do esquecimento, publicadas no Brasil pela Companhia das Letras.

:: A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca]. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1985; São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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