© R. Magritte

Assistindo a um desfile de escolas de samba, espetáculo maravilhoso de ritmo, som e colorido, X teve a sensação de dissolver-se na multidão, e por duas horas não existiu em si, mas no grupo. Guardava todas as percepções do indivíduo, e era como se esse indivíduo tivesse milhares de olhos, ouvidos, bocas. Seu próprio corpo se alastrara, pois, na impossibilidade de mover-se do ponto em que estava, sentia que suas pernas iam acabar a três quadras de distância, onde a rua aparecia livre.
Terminada a exibição, X verificou que lhe faltava a carteira, subtraída do bolso da calça por alguém que, menos comunicativo, resistira à absorção pela massa. Levara pouco dinheiro e, além de alguns papéis, apenas lamentou a perda de um retrato muito amado. Consolou-se pensando que essa lembrança seria restituída por não interessar a outrem.
No dia seguinte, o correio trouxe-lhe um cheque, e X foi ao banco descontá-lo. O empregado pediu-lhe, por obséquio, a carteira de identidade, e como ele não a tivesse, e ninguém ali o conhecesse para atestar que X era mesmo X, saiu sem receber o dinheiro.
Dirigiu-se a uma repartição pública, onde ia ter vista de um processo. E já estendia a mão para pegá-lo quando o funcionário, mantendo suspenso o maço de papéis, e delicadamente:
— Sua carteira, faz favor.
X explicou que estava sem carteira, furtada no meio do aperto etc. Mas não tinha importância: também era funcionário público, e o colega…
— Então me dê sua carteira funcional.
A funcional, com seu número de matrícula no Instituto das Sementes Oleaginosas, também fora batida, e X não podia consultar o dossier sem comprovar sua condição de X.
Como todo pequeno-burguês neste momento difícil para a humanidade, X tem dupla ou tripla profissão, e deu um pulo ao sindicato de classe, à cata de um atestado de que era mesmo X, e não Y. Pediram-lhe, de entrada, que mostrasse a carteira sindical. Claro que a sindical sumira com as outras. Mas não se podia espiar no arquivo os dados transcritos no documento?
— Poder, pode, mas não há como a carteirinha mesmo. E o arquivo está sendo reorganizado. O senhor volte daqui a duas semanas, tá?
— Meu caro…
— Se o senhor não tem carteira, que hei de fazer? Como posso saber que o senhor é o senhor mesmo? Faça como eu: o papai aqui só toma banho com a carteira sindical amarrada à cintura, num impermeável.
X arrastou-se ainda ao Ministério do Trabalho, mas, como também houvesse ficado sem carteira profissional (não confundir com sindical), não podia provar que tinha carteira profissional, nem mesmo profissão, nem sequer que existia.
Num esforço derradeiro, lembrou-se de que, como toda gente, era sócio da abi, e esta poderia salvá-lo, dando-lhe uma carteira nova de jornalista. Mas era preciso um retrato, sem o que a carteira não provava nada, e o fotógrafo da rua da Carioca, ao fim de uma longa escada comida pelo tempo, avisou:
— Distinto, procure daqui a três dias. Até lá, é bom não sair de casa…
Só então X compreendeu. Compreendeu que, desde a perda de suas carteiras, não existia mais. Um homem só existe pelos documentos de identidade. Seu retrato vale mais do que o corpo, um carimbo mais do que sua palavra, e um número mais do que tudo. Iluminava-se o velho problema filosófico da essência e da existência. Kierkegaard vislumbrara a solução, ao afirmar que existente é aquele que experimenta certa intensidade de sentimentos em contato com alguma coisa fora dele. Existente é aquilo que a coisa externa faz de nós, comunicando-nos seu sopro, e sem essa coisa não podemos sequer viver, pois nossos semelhantes não nos percebem em nós, mas em nossos símbolos civis. E o símbolo é a essência do ser.
Sem existir, X chegou ao largo da Carioca. Aí se viu no meio de uma briga, empurraram-no, maltrataram-no, e, como não tivesse documento algum, foi conduzido ao distrito e recolhido — por engano — ao xadrez. Lá dentro, um homem humilde fitou-o por muito tempo, hesitante, e afinal lhe tocou no ombro:
— O senhor se parece muito com um retrato que eu achei jogado na rua e guardei à toa. Quer ver?
Tirou do bolso sujo o velho retrato do pai de X, que ficara na carteira furtada. E X sentiu-se existir novamente, pois fora reconhecido, através das linhas do rosto, e sem o menor documento estampilhado.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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