Machado de Assis

Machado de Assis, cujo centenário de falecimento será lembrado neste dia 29, não teve vida fácil. Mulato, pobre, descendente de escravos, órfão de mãe, ainda teve de enfrentar uma doença que para ele foi uma carga muito pesada. Machado sofria de epilepsia. A doença provavelmente teve início na infância; o escritor aludiu a “umas coisas esquisitas” que sentira quando menino, mas não esclareceu do que se tratava. Aliás, ele relutava muito em admitir seu problema, ainda que suas crises convulsivas tivessem sido testemunhadas por muitas pessoas.

Machado não falava da enfermidade nem mesmo para amigos íntimos e só a revelou à esposa, Carolina de Morais, depois do casamento. O embaraço aparece até mesmo em sua literatura. Na primeira edição de Memórias póstumas de Brás Cubas, ele diz, ao falar do sofrimento de uma personagem cujo amante morre: “Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica…”. Nas edições posteriores a frase foi substituída por: “Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa…”. Por causa das convulsões, não raro mordia a língua, coisa que dificultava a fala, o que ele atribuía a “aftas”.

Machado não foi a única pessoa famosa a sofrer dessa doença muito frequente. O escritor russo Fiódor Dostoiévski teve cerca de quatrocentas crises epilépticas generalizadas convulsivas na fase madura de sua vida. As crises eram sempre seguidas de confusão mental, depressão e distúrbios transitórios de memória e fala. Mas o fato de a doença ser comum não eliminava o penoso estigma que representava, mesmo porque à época praticamente não havia tratamento eficaz.
Parece que Machado de Assis consultou o famoso dr. Miguel Couto e que tomou brometo, um fraco tranquilizante então usado, que não funcionou, causando inclusive efeitos indesejáveis. Mas Miguel Couto afirmava que a epilepsia se constituiu em um desafio para o escritor, um desafio que ele venceu com sua magnífica obra. Neste sentido, ele se identifica com outro grande autor que também foi epiléptico, Gustave Flaubert, e que também enfrentou com bravura o problema.

A epilepsia continua sendo uma doença muito comum, afetando, segundo se calcula, cerca de 50 milhões de pessoas no mundo. Mas a situação hoje é bem diferente daquela que ocorria na época de Machado. Há cerca de duas dezenas de medicamentos capazes de controlar as convulsões e, em certos casos, a cirurgia é eficaz. Após dois a cinco anos de tratamento bem-sucedido, a medicação pode ser suspensa em 70% das crianças e em 60% dos adultos. Machado de Assis certamente ficaria feliz com esta mudança.

[27/9/2008]

— Moacyr Scliar, no livro “Território da emoção”. São Paulo: Companhia das Letras, 2013

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Moacyr Scliar – uma vida entre a medicina e a literatura

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