Simone de Beauvoir, Clarice Lispector, Margaret Atwood, Susan Sontag, Virginia Woolf, Patti Smith, Grace Paley, Dulce Chacón, Charlotte Brontë, Marjane Satrapi e Fleur Jaeggy

❝ Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a.
— Clarice Lispector,  em “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

 Dezenove livros escritos por mulheres que os homens deveriam ler
– por Elena Horrillo e Carlos Primo – El País Brasil

É literatura excelente, que também fala de assuntos sob uma perspectiva capaz de revelar um mundo talvez desconhecido para o público masculino

“As mulheres escrevem de maneira diferente aos homens. Temos muita conversa doméstica e pessoal. As mulheres se sentem confortáveis falando do pessoal, ao contrário dos homens. As mulheres sempre compraram livros escritos por homens, e se deram conta de que não eram livros sobre elas. Mas continuaram a fazê-lo com grande interesse, porque era como ler sobre um país estrangeiro. Os homens nunca devolveram a gentileza.” São palavras da pacifista e escritora nova-iorquina Grace Paley (1922-2007).

Para devolver a gentileza, talvez devêssemos começar por estes 19 títulos.

‘O Segundo Sexo’ (1949), de Simone de Beauvoir

‘O Segundo Sexo’ (1949), de Simone de Beauvoir
Por que um homem deve lê-lo. Porque é uma leitura fundamental para qualquer homem que se interesse por entender como, ao longo da história, as identidades das mulheres foram sendo construídas – normalmente em relação a um homem: filha, esposa, mãe, esquecendo-se de si mesmas. Ou seja, como a metade da população foi definida – e se autodefiniu – em função da outra metade. Se você quiser entender de uma vez por todas o que é isso de “não se nasce mulher: torna-se”, esse livro explica perfeitamente. Obra fundacional do feminismo, discute o benefício que a igualdade real traria tanto para as mulheres como para os homens. É um ‘best-seller’ desde sua publicação, em 1949, e continua sendo de uma raivosa atualidade, apesar de ter sido escrito mais de seis décadas atrás.

‘O Conto da Aia’ (1985), de Margaret Atwood

‘O Conto da Aia’ (1985), de Margaret Atwood
Por que um homem deve lê-lo. Porque reflete uma sociedade patriarcal levada ao extremo. As mulheres são as principais prejudicadas, mas o homem também sofre as consequências (ainda que em menor medida). A adaptação televisiva foi um sucesso no Emmy, e esse é o livro de onde tudo saiu. ‘O Conto da Aia’ é principalmente um relato que incomoda porque nada do que leva a essa situação soa tão absolutamente improvável: a crise econômica, ecológica, o terrorismo, a perda de liberdades, o machismo… Como a própria Atwood escreveu: “Em determinadas circunstâncias pode acontecer qualquer coisa em qualquer lugar”.

“Ainda não aprenderam com o tempo sobre as coisas da vida.”
– Margaret Atwood, no livro ‘O conto da aia’ [tradução de Ana Deiró]. Rio de Janeiro: editora Rocco, 2ª ed., 2017.

‘Jane Eyre’ (1847), de Charlotte Brontë

‘Jane Eyre’ (1847), de Charlotte Brontë
Por que um homem deve lê-lo. Porque despe de convencionalismos e lugares-comuns uma figura, a da mulher órfã, solteira e trabalhadora, que os escritores do século XIX retrataram quase sempre com paternalismo. Se ‘Jane Eyre’ fosse escrito por um homem, sua protagonista seria uma mulher desvalida e vítima de todos. Mas Charlote Brontë conta a história de uma mulher que luta para ser independente e que resiste a ser apenas “mulher de”, e o que aparece é o oposto luminoso de ‘Madame Bovary’. Existe um fundo romântico, é verdade, mas não é o que importa: o essencial é que Jane Eyre fala diretamente ao leitor, conta-lhe sua vida e o faz partícipe dela. Relata de forma direta e apaixonada como era a vida provinciana da Inglaterra vitoriana, fugindo do vitimismo e da autocompaixão. Um romance apaixonante.

‘Persépolis’ (2000), de Marjane Satrapi

‘Persépolis’ (2000), de Marjane Satrapi
Por que um homem deve lê-lo. Imagine uma garota de 10 anos, criada dentro de uma família progressista, que assiste à vitória da Revolução Islâmica no Irã e conta em primeira pessoa, com um humor brilhante e irônico, as mudanças que essa nova ordem causa: a obrigatoriedade de se usar o véu, a restrição às liberdades e os guardiões da revolução. Convém lê-lo porque não se trata da história que outros contam sobre essas mulheres cobertas que vemos na televisão, como algo distante, silencioso e alheio, e sim de uma garota que utiliza sua própria voz para narrar. Porque a protagonista é a própria Satrapi que, mesmo querendo ser profeta quando criança, terminou perdendo a fé e contando sua história através de expressivas ilustrações em preto e branco. ‘Persépolis’ é uma mistura quase perfeita: uma lição de história, de igualdade e de liberdade.

‘La Voz Dormida’ (2002), de Dulce Chacón

‘La Voz Dormida’ (2002), de Dulce Chacón
Por que um homem deve lê-lo. Apesar de tudo o que existe escrito sobre a Guerra Civil espanhola e o franquismo, Chacón desenterra um lado desse prisma que raras vezes veio à luz: o de um grupo de mulheres encarceradas – uma delas, Hortensia, grávida de oito meses – na prisão de Las Ventas (Madri) no pós-guerra civil. Mulheres reais cuja voz foi silenciada, não só por ser a dos perdedores, mas também por serem mulheres. Nas oito palavras com as quais o livro começa – “A mulher que iria morrer se chamava Hortensia” – está a essência do texto. Duro e sem rodeios (ainda que a própria Chacón tenha reconhecido que precisou amaciar alguns dos depoimentos reais que reúne no livro), mas também com um traço de doçura, de lealdade e de comunidade. Se você está há meses escutando a palavra “sororidade” sem entender muito bem o que é, deveria ler ‘La Voz Dormida’ (“a voz adormecida”, inédito no Brasil).

‘Manual da Faxineira’ (2015), de Lucia Berlin

‘Manual da Faxineira’ (2015), de Lucia Berlin
Por que um homem deve lê-lo. Já se disse que Lucia Berlin se parece com Carver e Bukowski, de modo que é conveniente lê-la e reconhecê-la para que não tenhamos que compará-la, como sempre, a um autor masculino. Para que não seja mais “o Carver feminino”, mas simplesmente Lucia Berlin. Esse ‘Manual da Faxineira’ é uma antologia de contos publicados 11 anos depois da morte de sua autora, que curiosamente faleceu no dia de seu aniversário de 68 anos. Impregnados de ironia, humor negro e sarcasmo, Berlin (Alasca, 1936 – Los Angeles, 2004) perfila, com um importante viés autobiográfico, pequenas histórias de personagens – mulheres – maltratadas pela vida, mas não rendidas, e sem esse heroísmo imaculado que tantas vezes vemos na ficção.

‘Ms. Marvel’ (2014), vários autores

‘Ms. Marvel’ (2014), vários autores
Por que um homem deve lê-lo. Porque demonstra que as garotas também podem salvar o mundo. Façamos um exercício. Vamos fechar os olhos e pensar em um super-heroína. Ok, mas… tirando a Mulher Maravilha, popularizada por Patty Jenkins e Gal Gadot? É bem provável que, caso lembremos de mais alguma, tenhamos dificuldade em chegar a mais de três. Do jeito que é fácil pensar em Batman, Super-Homem e Homem-Aranha (todos homens), não? Para preencher esse vazio e para que você descubra que as garotas também podem salvar o mundo recomendamos ‘Ms. Marvel’, que, além disso, é uma super-heroína muçulmana, de família paquistanesa conservadora, que descobre seus poderes e decide utilizá-los para fazer o bem porque admira a Ms. Marvel original, outra personagem dos anos setenta. Essa HQ, como costuma acontecer com os personagens da Marvel, mostra uma garota normal, que vai ao colégio e que já tem problemas normais e suficientes além de seus poderes. Nada de milionários, filhos de deuses e traumas épicos de uma infância dramática. E o melhor é que, mesmo que você nunca tenha lido uma HQ na vida, não se perderá em nenhuma trama.

‘Sejamos Todos Feministas’ (2014), de Chimamanda Ngozi Adichie

‘Sejamos Todos Feministas’ (2014), de Chimamanda Ngozi Adichie
Por que um homem deve lê-lo. Porque ajuda, e muito, a saber o que é realmente o feminismo. Para evitar clichês, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie se define, no início desta palestra transformada em livro, como uma “feminista africana feliz que não odeia os homens e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”. Uma vez estabelecidas essas bases, ela continua esmiuçando as formas pelas quais o machismo se normaliza, como desde a nossa infância, a partir dos fundamentos da nossa educação, nos inocularam (inoculamos) essa visão que “prescreve como temos que ser, em vez de reconhecer como somos”. Com uma linguagem clara e ousada, este breve texto, que custa menos de 20 reais, se transformou em uma referência mundial. Na Suécia, costuma ser dado de presente a estudantes de 16 anos. Beyoncé incluiu duas frases do livro em sua canção ‘Flawless’.

‘Livre’ (2012), de Cheryl Strayed

‘Livre’ (2012), de Cheryl Strayed
Por que um homem deve lê-lo. Porque sua leitura vem a calhar para acabar com os estereótipos: se você espera encontrar uma mulher que solta gritinhos se encontrar uma cobra, está enganado. Voltamos às comparações. Há quem considere este ‘Livre – A Jornada de Uma Mulher em Busca do Recomeço’ de Cheryl Strayed, como a versão feminina de ‘Na Natureza Selvagem’, de Jon Krakauer. Mas são muito diferentes. Para começar, Strayed escreve sua própria história e o que a leva a iniciar seu caminho pela Trilha do Maciço do Pacífico (o Pacific Crest Trail, nos EUA): a morte da sua mãe, seu divórcio e um errante caminho entre a promiscuidade e as drogas. Um dia, sozinha e sem experiência alguma, ela começa a percorrer os 4.000 quilômetros dessa jornada. E o relato que resulta disso é apaixonante.

‘I Know Why the Caged Bird Sings’ (1969), de Maya Angelou

‘I Know Why the Caged Bird Sings’ (1969), de Maya Angelou
Por que um homem deve lê-lo. Porque é um exemplo brutal de superação por parte de uma mulher. Para quem não conhece, Maya Angelou (EUA, 1928-2014) foi poeta, cantora, bailarina e atriz; mas antes disso foi prostituta, cozinheira e gerente de casas noturnas de duvidosa reputação. E um pouco antes foi uma menina negra, estuprada pelo namorado da sua mãe, e que passou 10 anos sem falar depois de que o estuprador foi assassinado, supostamente por membros da sua família. Se só por isso você não ficar com vontade de ler ‘I Know Why the Caged Bird Sings’ (“sei por que o pássaro engaiolado canta”, inédito no Brasil), damos mais razões. Neste primeiro volume da sua autobiografia, Angelou narra como uma menina descobre o mundo que terá de enfrentar, em plena época da segregação racial nos Estados Unidos, sendo mulher, negra e pobre, uma tripla discriminação. E faz isso sem vitimismo, pieguice ou falso dramatismo, e sim com uma prosa inteligente e brilhantemente real. Se ficar com gosto de quero mais, há outros seis volumes que completam a biografia. O último deles é o que a atriz Emma Watson escondeu no metrô de Londres para fomentar sua leitura.

‘I Beati Anni del Castigo’ (1989), de Fleur Jaeggy

‘I Beati Anni del Castigo’ (1989), de Fleur Jaeggy
Por que um homem deve lê-lo. Porque, de forma insólita, reflete a reclusão social feminina, narrando a convivência entre mulheres num ambiente onde os homens estão ausentes. O primeiro romance dessa autora suíça de língua italiana (inédito no Brasil) é um dos livros mais estranhos e magnéticos que andam pululando por aí. Baseado em suas reminiscências de infância, está ambientado num opressivo internato feminino suíço onde nada parece acontecer – toda a tensão flui sob a superfície. Assim como outras obras-primas (por exemplo, ‘Entre Visillos’, de Carmen Martín Gaite), ‘I Beati Anni del Castigo (“os abençoados anos do castigo”) reflete de forma admirável o isolamento social (“Nós nos recolhemos aos nossos quartos, a vida a vimos passar através das janelas”).

‘A Hora da Estrela’ (1977), de Clarice Lispector

‘A Hora da Estrela’ (1977), de Clarice Lispector
Por que um homem deve lê-lo. Porque a prestigiosa filósofa Hélène Cixous considerava essa autora brasileira de origem ucraniana como um exemplo perfeito de “escrita feminina”, uma polêmica categoria estilística. Em todo caso, e filosofia à parte, ‘A Hora da Estrela’ é o texto mais acessível de Lispector e a melhor introdução possível à obra. Sua protagonista, Macabea, é uma migrante perdida no Rio de Janeiro, cuja vida transcorre a meio gás, sem que ela pareça perceber. Conta coisas corriqueiras, mas parecem epopeias. E muito importante: a escrita de Clarice Lispector não se parece com nenhuma outra.

❝ Não tenho medo nem das chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas. Pois eu também sou o escuro da noite.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

‘Diante da Dor dos Outros’ (2003), de Susan Sontag

‘Diante da Dor dos Outros’ (2003), de Susan Sontag
Por que um homem deve lê-lo. Porque é um ensaio crucial sobre um elemento tipicamente masculino, a violência visual, que se tornou uma presença diária em nossas vidas. A ensaísta Susan Sontag tinha uma habilidade assombrosa para se aproximar de um tema, dissecá-lo com cuidado e chegar a conclusões radicalmente brilhantes. Este livro, que trata da violência das reportagens de guerra, das fotos de catástrofes e inclusive do cinema ‘gore’, é um desses raríssimos textos dos quais o leitor sai vendo o mundo de outra maneira e sentindo que aprendeu algo de útil. Os livros de Sontag ensinam a pensar, e estão a anos-luz da autoajuda.

 

‘Só Garotos’ (2010), de Patti Smith

‘Só Garotos’ (2010), de Patti Smith
Por que um homem deve lê-lo. Porque se há um terreno machista esse é o do rock. E nele Patti Smith avançou entre muitos obstáculos até conseguir o respeito de todos. Neste livro a artista retrata, a partir do seu privilegiado ponto de vista e sob o pretexto de relatar sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, como era a vida na Nova York do final dos anos sessenta e começo dos setenta. Ali vivia uma Patti Smith ainda relativamente desconhecida, que dividia um quarto do hotel Chelsea com Mapplethorpe – que a retratou para a célebre capa do seu álbum ‘Horses’. Um casal que, sem dinheiro para pagar dois ingressos numa exposição, decidia quem iria entrar para depois contar ao outro, e que ouviu dois turistas, em dúvida sobre se eles eram ou não celebridades, comentarem: “São só garotos”.

‘Rumo ao Farol’ (1927), de Virginia Woolf

‘Rumo ao Farol’ (1927), de Virginia Woolf
Por que um homem deve lê-lo. Porque é uma análise perfeita das relações familiares e de um matriarcado simbólico através de uma personagem, a senhora Ramsay, que foge a todos os clichês sobre a maternidade. Nesta novela, Woolf narra as férias de uma família numa casa de campo e vai dando voz a diversos personagens. Todos planejam fazer uma excursão a um farol próximo, mas o tempo passa e a ideia vai sendo adiada. Lido com atenção (pois, como se sabe, a escrita de Woolf às vezes é afetada e complexa), é um magnífico tratado sobre a frustração dos sonhos.

“Então, sob a cor havia forma. Podia ver isso com clareza, imperiosamente, quando olhava; quando pegava no pincel é que tudo mudava. Era nesse vôo momentâneo entre a paisagem e sua tela que os demônios a possuíam, levando-a à beira das lágrimas.”
– Virginia Woolf, no livro ‘Rumo ao Farol’. [tradução Tomaz Tadeu]. Coleções Mimo. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013.

‘Os paços de Ulloa’ (1886), de Emilia Pardo Bazán

‘Os paços de Ulloa’ (1886), de Emilia Pardo Bazán
Por que um homem deve lê-lo. Porque, diferentemente do que acontece em outros grandes romances do século XIX, aqui não há um homem escrevendo sobre mulheres, e sim uma mulher que retrata um mundo de homens. Este romance (lançado em Portugal, mas não no Brasil), considerado escandaloso em seu tempo, desmitifica a Galícia rural do século XIX e critica duramente a sua sociedade clientelista, classista e dominada pela Igreja. O resultado é um romance selvagem, violento e sem contemplações, um novelão rural magnificamente escrito que continua prendendo o leitor desde a primeira página.

“La dictadura es como una aria y nunca llega a ser ópera”
– Emilia Pardo Bazán

‘Biographie de la Faim’ (2004), de Amélie Nothomb

‘Biographie de la Faim’ (2004), de Amélie Nothomb
Por que um homem deve lê-lo. Porque o tema do qual trata, os transtornos alimentares, é o grande ausente na literatura escrita por homens. Se você reparar, há inúmeros romances masculinos que tratam outras doenças (do alcoolismo ao câncer, passando pela depressão e a AIDS), mas pouquíssimos abordam doenças que, estatisticamente, atingem mais a população feminina. Em ‘Biographie de la Faim’ (A biografia da fome, inédito no Brasil), o assunto vem acompanhado de um texto literário magnífico, um romance autobiográfico que, de certo modo, é como uma síntese de todos os livros que a belga Amélie Nothomb publicou ao longo de sua vida. Em todos eles, salpicou elementos da sua biografia entre os relatos, mas aqui ela coloca os pingos nos is e conta sua adolescência com uma clareza perturbadora e com um tom, o seu, capaz de introduzir humor, ironia e surrealismo até nos ambientes mais asfixiantes.

‘Celia en la Revolución’ (1943), de Elena Fortún

‘Celia en la Revolución’ (1943), de Elena Fortún
Por que um homem deve lê-lo. Porque a Guerra Civil espanhola já foi contada de mil maneiras, mas pouquíssimas vezes na voz de uma mulher, neste caso uma garota que está virando mocinha. E o resultado é de arrepiar. O título pode soar como romance infantil, e ele de fato tem um pouco disso: Celia foi a personagem mais célebre de Fortún, um clássico entre as crianças espanholas de antes e depois da Guerra, objeto de reedições ao longo dos anos e inclusive de uma série televisiva roteirizada por Carmen Martín Gaite. Esta história, entretanto, não é para crianças. Nela, Celia já é uma adolescente que vive a guerra em Madri, enfrentando a violência e a injustiça com a mesma atitude inquisitiva de sempre. Um romance comovente e um testemunho essencial sobre o impacto da guerra na vida cotidiana, infelizmente inédito no Brasil.

‘Bom Dia, Tristeza’ (1954), de Françoise Sagan

‘Bom Dia, Tristeza’ (1954), de Françoise Sagan
Por que um homem deve lê-lo. Porque foi o primeiro romance a revelar em primeira pessoa o despertar sexual de uma adolescente, sem conotações masculinas, dramatismo nem clichês de romance erótico. Escrita por Sagan durante férias escolares passadas em Paris, narra a história de uma adolescente que descobre, de repente e à força, o sexo, a liberdade, o ciúme e sua consequência, a tristeza. Foi uma autêntica revolução na época, o nascimento de uma estrela literária. Na França dos anos cinquenta, obcecada pela moralidade e a ordem, não havia nada tão revolucionário como a história de uma garota que vai para a cama com um flerte de verão, sem dar demasiada importância ao fato. Anos depois, conserva intacta sua espantosa simplicidade e continua sendo lido num piscar de olhos.

Fonte: El País Brasil

“Mas não era isso que as incomodava, diziam as crianças. Não era o seu rosto; não eram as suas maneiras. Era ele – o seu ponto de vista. Quando elas falavam sobre algo interessante, pessoas, música, história, qualquer coisa, simplesmente comentavam que fazia uma noite bonita, por que não iam sentar lá fora, então o que elas se queixavam a respeito de Charles Tansley era que, enquanto não tivesse virado a coisa toda de ponta-cabeça, fazendo com que, de alguma forma, refletisse ele próprio e as rebaixasse, enquanto não deixasse todas elas, de alguma maneira, com seu jeito amargo de espremer o sumo e a polpa de tudo, todas elas com os nervos à flor da pele, ele não ficava satisfeito.”
– Virginia Woolf, no livro ‘Rumo ao Farol’. [tradução Tomaz Tadeu]. Coleções Mimo. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013.

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