Antônio Francisco da Costa e Silva

Vou agora sonhar…
A minha vida, sempre inquieta como o mar,
É de renúncia, sacrifício, desencanto:
Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto,
Estende-se o horizonte, além do meu olhar…

Na imensidade azul fico a cismar, enquanto,
A refletir o céu, vai-se acalmando o mar…
Acalma-se também minha dor, por encanto:
— Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar…
– Da Costa e Silva, em “Anthologia”. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1934.

§

Supremo enigma
Quando os meus olhos aos teus olhos volvo,
O almo candor das lágrimas cintila
No teu olhar e ensombra-te pupila
A névoa ideal do sonho em que me envolvo.

Um mistério de Amor que eu não resolvo
Possui teu ser e em teu olhar se asila,
– Mistério ideal que enleva e que aniquila
Num doce abraço enérgico de polvo.

Quem me decifrará todo esse enigma
Que eu sinto e não compreendo e que me mostras
Através desse olhar, como um estigma?…

Quem há que o teu segredo me desvende
– Pérola que a Alma oculta como as ostras
E que no olhar em pérolas esplende?
– Da Costa e Silva, em “Grandes Sonetos da nossa Língua”. [organização e seleção de José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

§

Saudade
Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor de minha terra… O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho… O caboré com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando…
E, ao o vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
As mortalhas de névoa sobre a serra…

Saudade! O Parnaíba – velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra…
– Da Costa e Silva, em “Grandes Sonetos da nossa Língua”. [organização e seleção de José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

§

Cruzada negra
MORS – em letras de luz gravo no meu escudo.
A divisa imortal de cavaleiro traço
Em campo negro. E, após, visto a armadura de aço.
Preme a cota, a luzir, o meu peito desnudo.

O elmo à cabeça, a espada à cinta, a lança ao braço,
Desço ao pátio e cavalgo o meu corcel sanhudo,
E ele, a resfolegar, indiferente a tudo,
Rasga, como um fuzil, a escuridão do espaço.

Levo a lira no arção. Impassível e forte,
No solar do Não Ser, ante o perfil da Morte,
Cantarei a balada augusta e soberana

De cavaleiro errante menestrel transeunte…
E aonde vou? Aonde vou? Ainda há alguém que o pergunte?
– Busco a Jerusalém remota do Nirvana…
– Da Costa e Silva, em “Grandes Sonetos da nossa Língua”. [organização e seleção de José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

§

Tarântula
Doudo, sonho que o Sol é a maior das aranhas,
–Tarântula do Azul – a ígnea teia da Vida
Tecendo caprichosa, a arrancar das entranhas
Rubros fios de sangue e de luz difundida.

Urde os fios e os prende, elo por elo, à urdida
Rede transluminosa, a alongar as estranhas
Antenas de ouro de fogo, e com a trama tecida
Estende véus iriais para além das montanhas…

Nessa teia de luz um mistério se encerra:
Sabe-o a Aranha, cravando o enorme olhar que infunde
A energia vital que há no ventre da terra.

Aracnídeo exemplo, almo e augusto, desvendo
No Sol, como a ensinar que tudo se fecunde
Sempre, Aranha do Azul, véus de noiva tecendo…
– Da Costa e Silva, em “Grandes Sonetos da nossa Língua”. [organização e seleção de José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

§

A moenda
Na remansosa paz da rústica fazenda,
À luz quente do sol e à fria luz do luar,
Vive, como a expiar uma culpa tremenda,
O engenho de madeira a gemer e a chorar,

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
E ringindo e rangendo, a cana a triturar
parece que tem alma, adivinha e desvenda
A ruina, a dor, o mal que vai, talvez, causar…

Movida pelos bois tardos e sonolentos
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai! Dos teus tristes ais! Ai! Moenda arrependida!
— Álcool! para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!
– Da Costa e Silva, em “Zodíaco”, 1917.

§

Nel Mezzo Del Camin…
Passou de leve a Esperança
Pelo meu coração…
Encantou-me no azul do meu sonho de criança:
Ardeu como uma estrela… E era um pobre balão!

Passou de leve a Alegria
Pelo meu coração…
O Amor, dentro em meu ser, como um jardim, floria…
Como é triste, meu Deus, esta recordação!

Passou de leve a Ventura
Pelo meu coração…

Como foi que passou, se a busco com loucura,
Sentindo-me infeliz por deseja-la em vão?
– Da Costa e Silva, em “Verônica”. 1927.

§

Eu sou tal qual o Parnaíba: existe…
Eu sou tal qual o Parnaíba: existe
Dentro em meu ser uma tristeza inata,
Igual, talvez, à que no rio assiste
Ao refletir as árvores, na mata…

O seu destino em retratar consiste;
Porém o ri todo que retrata,
Alegre que era, vai tornando triste
No fluído espelho móvel de ouro e prata…

Parece até que o rio tem saudade
Como eu, que também sou dessa maneira,
Saudoso e triste em plena mocidade.
Dá-se em mim o fenômeno sombrio
Da refração das árvores da beira
Na superfície trêmula do rio…
– Da Costa e Silva, em “Pândora”. 1919.

§

In tenebris
Cego, tacteio em vão, num caminho indeciso…
Que é feito desse amor que tanto me entristece,
Que nasceu de um olhar, germinou num sorriso,
Que viveu num segredo e morreu numa prece?!

É um mysterio talvez; desvendal-o preciso.
A alma sincera e justa—odeia, não esquece…
Si essa a quem tanto quiz hoje me não conhece,
Morra a ventura vã que debalde idéaliso.

Ai! desse amor nasceu a dor que me subjuga:
A dor me fez verter a lagrima primeira,
E a lagrima, a brilhar, cava a primeira ruga…

Atra desillusão crava-me a garra adunca.
Cego de amor, em vão tacteio a vida inteira,
Buscando o amor feliz e esse amor não vem nunca.
– Da Costa e Silva, em “Sangue”. Recife: Livraria Franceza, 1908. (grafia original)

§

Anathema
Persigam-te as prisões fortes do meu ciúme
—Invisíveis grilhões de desejo e de zelo:
Prendam-te as mãos, os pés, as ondas do cabello,
O olhar, o hálito, a voz e o que em ti se resume.

Vibre o som desse andar, vague o doce perfume
Dessa carne pagã, causa do meu desvelo,
Mando que te acompanhe o eterno pesadelo
Deste amor que ainda mais temo em dor se avolume.

Ronda-te o meu olhar, como o olhar de um morcego
Varando o brumo véo de uma noite de crime,
Prescrutando, a seguir-te —onde chegas eu chego.

Foges? Em vão fugir —o ciúme priva a fuga…
E esse amor que te busca e te cerca e te opprime,
É o mesmo que me afflige, acobarda e subjuga.
– Da Costa e Silva, em “Sangue”. Recife: Livraria Franceza, 1908.
(grafia original)

§

A aranha
Num angulo do tecto, agil e astuta, a aranha
Sobre invisivel tear tecendo a tenue teia,
Arma o artistico ardil em que as moscas apanha
E, insidiosa e subtil, os insectos enleia.

Faz do fluido que flue das entranhas a extranha
E fina trama ideal de seda que a rodeia
E, alargando o aronhol, os élos emmaranha
Do alvo disco nupcial, que a luz do sol prateia.

Em flóculos de espuma urde, borda e desenha
O arabesco fatal, onde os palpos apoia
E, tenaz, a caçar os insectos se empenha.

Vive, mata e produz, nessa faina enfadonha;
E, o fascinante olhar a arder como uma joia,
Morre na própria teia, onde trabalha e sonha.
– Da Costa e Silva, em “Anthologia”. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1934.
(grafia original)

§

Antônio Francisco da Costa e Silva – foto: Acervo Fundaj

BREVE BIOGRAFIA
Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933. Faleceu em 29 de junho de 1950.
Publicou os seguintes livros de poemas: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919) e Verônica (1927). Organizou ele próprio uma Antologia de seus versos, cuja primeira edição é de 1934. Posteriormente saíram mais duas edições; a última em 1982. De suas Poesias Completas publicaram-se três edições: em 1950, 1975 e 1985.
Fonte: Jornal da Poesia

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