©Faith Jaques

Depois que, há algumas gerações, o arsênico deixou de ser vendido em farmácia, não diminuíram os casos de suicídio ou envenenamento criminoso, mas aumentou — e quanto! o número de ratos.
Antigamente era fácil e esportivo matá-los. Hoje, isso constitui privilégio do Serviço Nacional de Peste, cujos agentes fazem obra limpa e rápida, mas é triste um cidadão já não dispor de poderes para liquidar um rato em seu lar. Que outra liberdade nos resta?
João Brandão, morador em Botafogo, não pretendendo incomodar aquele órgão federal, dispôs-se a dar caça direta aos murídeos que lhe infestam o domicílio — uma casa meio antiga, que desperta a gula dos especuladores de imóveis. Agiria a pau, e de tocaia, como lhe disseram que são as caçadas humanas no interior. Os ratos passaram-lhe entre as pernas, e João quase fraturou uma, pois já lhe faltam o viço e maleabilidade da juventude. Escapou de ser ferrado na panturrilha por um ratão mais assustador do que assustado, e a agressão só não se consumou porque agressor e agredido, afinal, fugiram desabaladamente um do outro.
Falhou também a tentativa original de atrair os bichos para o fogão, ligar o gás e torrá-los. O gás anda fraquíssimo.
Obturadas as fendas do soalho, por onde se introduziam em casa, passaram eles a abrir buracos na parede, através de cimento e ferro, e, para que o prédio não virasse farinha, João pensou em outra coisa.
Veio a fase das ratoeiras, que não funcionam quando devem, ou não devem quando funcionam, e costumam lascar o dedo de um cristão com habilidade igual à de um corta-presunto americano. O pá! da mola, disparando sobre a plataforma do aparelho, repercutia no peito de João, como um som de guilhotina a liquidá-lo a ele. Mesmo guilhotinado, corria para ver o sucedido — e sempre sumia o queijo, e nunca ficava o rato.
João arquivou esses instrumentos inoperantes, refletindo que se eram assim as ratoeiras do tempo de seu avô, as notícias de grandes caçadas daquela época devem sofrer um desconto de noventa e nove por cento. Não desistiu, porém, e entrou no período dos pós e pastas fulminantes contra ratos, baratas e quaisquer animais daninhos, produtos esses oferecidos em embalagem sinistra, com caveirinhas e ossos cruzados, e recomendações em letras de sangue: “Cuidado! Não deixe este tubo perto de seus filhos. Queime o papel que serviu para limpar a boca da bisnaga. E lave bem as mãos depois de aplicar Mortil. Mortil é veneno”.
É, hem? Barrada com Mortil, ou que nome tenha uma fatia de pão, e posta no chão da cozinha, João verificou, bestificado, que os ratinhos lambiam aquela espécie de manteiga e deixavam o miolo. Tornaram-se exigentes, e só queriam Mortil, que João teimava em propiciar-lhes em doses cada vez mais cavalares, na esperança de que o excesso de substância, e não a toxidez, criasse a letalidade — ou simplesmente para ver até onde iria aquela brincadeira. Não tinha experimentado o “remédio” em baratas; experimentou, e o encantamento foi o mesmo. Havia em casa um cãozinho aposentado e sonolento. João hesitou em proceder a novo teste, mas procedeu: pelo abanar do rabo, o cãozinho manifestou sua aprovação ao novo tipo de alimento.
João teve uma ideia horrível. Não ouso reproduzi-la, pois a pessoa do meu amigo ficaria comprometida aos olhos de todos, a menos que vissem nisso uma simples manifestação de humor negro. Não era negro, não, mas o fato é que as crianças da casa não chegaram a provar Mortil. Alimentam-se com gêneros mais corriqueiros.
E aquilo ficava por um preço que não se coaduna com o índice orçamentário de João, nem com a conjuntura nacional. João verificou que não há remédio nem jeito contra rato, salvo o jeito que eles mesmos, ratos, quiserem dar, mudando de casa, rua ou nação. Dentro de cada nação, porém, e no estado atual dos conhecimentos humanos, a eliminação dos ratos é utópica.
Começou, não digo a estimá-los, mas a aceitá-los, o que é quase compreendê-los. Facilita o trajeto e o abastecimento dos ratos, que, achando tudo no lugar, não reclamam. Quando se esquece de fazê-lo, é alvo de represálias: comem-lhe uma fotografia querida, uma gravata, folhas de livro. Certa vez, um subiu-lhe na cama e encarou-o muito tempo, com ironia. São escarninhos e vingativos, mas, deixados em paz, roem em paz.
O problema está resolvido para João Brandão.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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