©Sorin Dumitrescu Mihaesti

Acontece, doutor, que no meu caso os sonhos têm ciclos temáticos. Houve um tempo em que eu sonhava com enchentes. De repente, os rios transbordavam e inundavam os campos, as ruas, as casas e até minha própria cama. Aliás, foi em sonhos que aprendi a nadar, e graças a isso consegui sobreviver às catástrofes naturais. Pena a duração dessa habilidade ter sido apenas onírica, pois mais tarde tentei exercê-la, completamente acordado, na piscina de um hotel e quase morri afogado.
Depois veio um período em que sonhei com aviões. Ou melhor, com um avião, porque era sempre o mesmo. A aeromoça era feiosa e me tratava mal. Dava champanhe para todo mundo, menos para mim. Quando perguntei por quê, ela me olhou com um rancor longamente programado e respondeu: “Você sabe muito bem por quê.” Fiquei tão surpreso com aquela intimidade, que quase acordei. Além disso, não imaginava do que ela estava falando. Ainda me debatia nessa dúvida quando o avião entrou numa turbulência e a aeromoça feiosa se estatelou no corredor, de um jeito que a minissaia levantou e pude constatar que não usava nada por baixo. Justo nessa hora acordei e, para minha surpresa, não estava na minha cama, mas num avião, fileira 7, poltrona D, e uma aeromoça parecida com a Gioconda me oferecia em inglês básico uma taça de champanhe.
Como vê, doutor, às vezes os sonhos são melhores que a realidade, e vice-versa também. O senhor se lembra do que Kant disse? “O sonho é uma arte poética involuntária.”
Em outra fase, tive sonhos recorrentes com filhos. Filhos que eram meus. Eu, que sou solteiro e não tenho nem sequer filhos naturais. Com o mundo do jeito que está, acho uma irresponsabilidade conceber novos seres. O senhor tem filhos? Cinco? Desculpe. Às vezes digo cada bobagem.
As crianças do meu sonho eram muito pequenas. Algumas engatinhavam e outras passavam a vida no banheiro. Parece que eram órfãos de mãe, pois ela nunca aparecia, e as crianças não tinham aprendido a dizer mamãe. Na verdade, também não diziam papai, mas em sua meia-língua me chamavam de “turco”. Justo eu, que tenho avós corunheses e bisavós lucenses. “Turco, vem cá”, “Turco, quero a papa”, “Turco, fiz xixi”. Num desses sonhos, eu ia descendo por uma escada meio quebrada quando, pimba, levei um tombo. Aí o maiorzinho dos meus nenês me olhou sem dó e disse: “Se fodeu, Turco.”
Assim já era demais, portanto tratei logo de acordar da aflição para minha realidade sem anjinhos.
Num ciclo posterior de futebol sonhado, eu sempre jogava de guarda-meta, ou arqueiro, ou porteiro, ou goalkeeper, ou goleiro. Quantos nomes para a mesma calamidade! Sempre chovia antes do jogo, por isso o campo estava molhado e fatalmente se formava uma grande poça na frente do gol. Aí aparecia um atacante e metia uma bomba que eu de primeira defendia, mas no rebote a bola molhada escapava das minhas luvas e passava redondinha a linha do gol. Nessa altura do campeonato (literalmente), o que eu mais queria era acordar, mas ainda tinha que ouvir a arquibancada inteira gritar atrás de mim: traidor!, vendido!, quanto você levou?, e outras coisinhas mais.
Nos últimos tempos, minhas aventuras noturnas foram invadidas pelo cinema. Não pelo cinema de hoje, tão ruim, mas pelo de antigamente, que nos comovia e tomava conta da nossa vida com rostos e atitudes que eram modelos. Eu me dedico a sonhar com atrizes. E que atrizes! Nada menos que Marilyn Monroe, Claudia Cardinale, Harriet Andersson, Sonia Braga, Catherine Deneuve, Anouk Aimée, Liv Ullmann, Glenda Jackson e outras maravilhas. (Aos atores, meu Morfeu não concede visto.) Como vê, doutor, a maioria são veteranas ou já se foram, mas sonho com elas como apareciam nos filmes daquela época. Por exemplo, quando digo Claudia Cardinale, não me refiro à de agora (que não está nada mal), e sim àquela de La ragazza con la valiglia, aos 21. Marilyn, por exemplo, se aproxima de mim e me diz num tom carinhosamente confidencial: “I don’t love Kennedy. I love you. Only you.” Vale esclarecer que nos meus sonhos as atrizes às vezes falam em versão legendada e às vezes dubladas em castelhano. Eu prefiro com legendas, pois uma voz como a de Glenda Jackson ou a de Catherine Deneuve é insubstituível.
Bom, na verdade vim consultá-lo porque ontem sonhei com a Anouk Aimée, não a de agora (que também não está mal) mas a de Montparnasse 19, quando tinha fabulosos 26 anos. Não pense mal de mim. Eu não a toquei nem ela me tocou. Simplesmente apareceu numa janela do meu estúdio e disse apenas (versão dublada): “Amanhã à noite venho te ver, não no teu estúdio, mas na tua cama. Não esquece.” Como é que eu vou esquecer? O que eu queria saber, doutor, é se os preservativos que compro na farmácia servem nos sonhos. Porque, sabe como é, não gostaria de engravidá-la.

– Mario Benedetti, no livro “Correio do tempo”. tradução Rubia Prates Goldoni. Rio de Janeiro : Objetiva, 2011.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS