"Como é boa...": brincadeira suave. Fonte: Cinemateca

“O Brasil, da barbárie à decadência, sem ter passado pela civilização”. A frase surge em algum momento de “Tensão no Rio”, filme que Gustavo Dahl realizou em 1982. Em mais de três décadas esse mote nunca deixou de ser atual. No entanto, neste insano 2017, a sensação de selvageria cresce. Após triste sucessão de eventos iniciada ano passado, protagonizada pela mídia, congresso, judiciário, paneleiros e patos de borracha, o país migrou rapidamente de promessa de equilíbrio social à piada global.

Quando Anna Muylaert lançou “Quer horas ela volta?”, recebeu críticas por realizar um filme supostamente “governista”. Talvez em certo sentido o seja: celebra a possibilidade de ascensão social, num país extremamente desigual, mas num momento com mais inclusões que em quaisquer outros. Seja em universidades públicas ou privadas, no acesso a bens de consumo ou em espaços tradicionalmente destinados a setores abastados. Gente pobre e de pele escura entre médicos, advogados, arquitetos e dividindo o voo com ricos e com a classe média “antiga”: isso trouxe incômodos. E dos paneleiros que toparam posar de “o povo” para a mídia, pra tirar o “corrupto PT” do governo, não sobrou um à caça do atual presidente et quadrilha e contra a reforma trabalhista feudal que se impôs.

No “novo Brasil”, sai Jéssica, volta a Val. fonte: AdoroCinema

Em algum momento de “Que horas ela volta?”, o patrão (Lourenço Mutarelli) pede desculpas à protagonista Val (Regina Casé), que aceita. Tudo num curtíssimo espaço. Muito se falou do filme, mas não lembro de ter ouvido alguém comentar essa cena. A insinuação é simples: após tanto tempo na casa, é improvável que o patrão não tenha alguma vez abusado sexualmente da empregada – o patrão tentara o mesmo com a filha de Val, Jéssica, noutra ocasião, um tanto patética. Val está ficando velha, é o passado, é a antiga mucama explorada. Jéssica aponta o futuro, será arquiteta, contesta, não aceita desaforo.

Eis que me surge aqui, em meios às pesquisas diárias, “Como é boa nossa empregada”, longa de 1973 com dois episódios dirigidos por Victor di Mello e um por Ismar Porto. Na época em que o formato das pornochanchadas se sedimentava, o título deixa claro o propósito do filme. Nada de novo, nada de anormal, mas colocando em perspectiva, é possível extrair algo do comportamento histórico da sociedade brasileira, que parece imutável, pétreo.

Se “Que horas…” seria quase impensável uns vinte anos atrás, hoje “Como é boa…” certamente receberia muitas críticas. Sim, críticas do “politicamente correto”, ao qual tento fugir a la Satanás correndo da cruz. Aliás, o politicamente correto acabaria com 80% dos filmes brasileiros da década de 1970, a maioria muito mais complexos do que aparentavam ser.

O problema não reside aí. O retrato das empregadas domésticas no longa é que me é um tanto incômodo; não por ser original, rebelde, contestador, mas o oposto: pela extrema naturalidade com que situa a doméstica como uma espécie de bicho feito para a saciação sexual dos patrões ricos e iniciação dos jovens playboys.

Um dos diversos restaurantes com o nome “Senzala” no país. Fonte: TripAdvisor

As domésticas, é claro, são uniformizadas, como no filme de Muylaert. Coisas do Brasil: temos fetiche por uniformes de empregada, por mucamas, por escravas. No Brasil restaurante caro se chama Senzala (dá imaginar um chamado “Belsen” em Israel ou “Fat Man” no Japão?). Assim como a Val de “Que horas…”, são figuras passivas, que respeitam os seus patrões-donos. Não tem espaço pra insolências de uma Jéssica. Em “Como é boa…”, a empregada tem duas utilidades: se não responde a um certo padrão de beleza, ou seja, se negra ou acima do peso, apenas deve limpar a casa. Se branca ou mulata “voluptuosa”, será assediada naturalmente por todos os machos de plantão.

A empregada Clarinha, do primeiro episódio, é assediada pelo adolescente, pelo pai e pelo amigo da família. E se ri de tudo isso: ela aprecia a cena, a disputa. Ao ser demitida, por ter relações com rapaz da família, aceitará se envolver sexualmente com os homens da família. A doméstica aqui ou é uma herdeira da escrava, ou é uma espécie de “empregada sexual” legitimada.

O segundo episódio, protagonizado por um jovem Stepan Nercessian, abre com uma uma sequências de tentativas de abuso – ou “quase-estupros” – do moleque com toda empregada que vê na frente. Conceição é salva da violação porque a mãe de Bebeto (Stepan) aparece, enojada: “se metendo com empregadinhas!” As meninas, quase abusadas, logo saem rindo, pois não há nada de anormal, para elas, para os patrões, para o olhar que o filme vende. Na óptica do filme, é mais provável que elas apreciem o assédio e a violência. “Brincadeirinha inocente” do guri.

O psicólogo vivido por José Lewgoy explica: “no Brasil é normal, os rapazes têm iniciação sexual com empregadas”, e por “serem serviçais humildes, isso lhes dá mais segurança”. O coitado, afinal, é apenas “tímido”, “inseguro”. A certa altura, a empregada Conceição aceita “ceder” sua virgindade ao rapaz, embora outro evento pretensamente cômico impeça o acontecimento.

O último episódio é o mais “suave”. Basicamente, um homem rico (Jorge Dória) odeia que o filho se atraque com “malditas empregadas”, mas ele próprio, hipócrita, faz o mesmo. Sim, a visão do filme o pinta como cafajeste, cínico, preconceituoso – mas não tem problemas com o filho carregando as empregadas para o leito.

Não é preciso dizer que há filmes com temas complicados, ou mesmo abjetos, mas que possuem inegável relevância para o cinema e qualidades para além de seus discursos. O cinema não pode ignorar que sua evolução passa por obras como o racista “O nascimento de uma nação” de Griffith ou o nazista “O triunfo da vontade”, da Leni Riefenstahl. Filme dos anos da pornochanchada eram recheados de uma visão homofóbica e frequentemente misógina: em “Profissão mulher”, regido pelo talentoso Cláudio Cunha, o estupro da personagem de Patrícia Scalvi é tido como uma relação normal. Em “Giselle”, também de Victor di Mello, filmes com seus pontos positivos, a presença de um molestador de crianças não parecer ser algo preocupante. E por aí vai. Sim, isso incomoda, isso preocupa.

“Como é boa…” é um filme que deveria estar preso a sua época, num Brasil atrasado dos anos 70, vivendo a farsa do “milagre” e reiterando suas tradições e vocação de pátria autoritária e colonial. Ocorre que, com tantos regressos à volta, de repente esse longa parece dialogar com o Brasil de 2017. O filme ficou em 73: nós é que voltamos no tempo.

Fiesp chamou, eles foram: “primeiro a gente tira a Dilma”. fonte: Vem pra Rua

Poucos anos atrás, com um século de atraso, as trabalhadoras domésticas conquistaram a garantia de direitos e benefícios, para pânico de parte da classe média. Ficou quase impossível explorar, manter a “mucama” em casa permanentemente, deixar de pagar direitos. No horizonte que se configura, esse esforço estará com os dias contados. “Como é boa nossa empregada”: sim, sim, tudo aqui é comédia, mas nestes dias de precarização, “flexibilização”, “terceirização” e picote da CLT, ganha ares um tanto infames. Sai Jéssica, volta a Val do início de “Que horas…”, resignada. E voltam as empregadas-escravas das antigas chanchadas, que se riem quando são violentadas.

André de Paula Eduardo é jornalista, formado na Unesp, onde fez mestrado em Comunicação. Pesquisa cinema brasileiro, torce pro Santos e é apaixonado por Brahms e Pink Floyd. Colunista e colaborador da Revista Prosa Verso e Arte.

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