Clarice Lispector - foto: Arquivo da família

❝ Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
— Clarice Lispector, último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, em 7.12.1977.

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FELICIDADE CLANDESTINA

❝ O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo.
— Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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ÁGUA VIVA

❝ Não cumpro nada: apenas vivo.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ …a realidade não tem sinônimos.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Eu só trabalho com achados e perdidos.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ O que eu te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Não, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra é aí que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Sinto agora mesmo o coração batendo desordenadamente dentro do peito. E a reivindicação porque nas últimas frases andei pensando somente à tona de mim. Então o fundo da existência se manifesta para banhar e apagar os traços do pensamento. O mar apaga os traços das ondas na areia. Oh Deus, como estou sendo feliz. O que estraga a felicidade é o medo.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda.
Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se pode dizer.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.
— Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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A HORA DA ESTRELA

❝ Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Só escrevo o que quero,não sou um profissional.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Não tenho medo nem das chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas. Pois eu também sou o escuro da noite.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.
— Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

A DESCOBERTA DO MUNDO

❝ Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam diretamente.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Nem sempre esmiuçar demais dá certo.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil -, fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ O que não será jamais elucidado é o meu destino.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Estou habituada a não considerar perigoso pensar.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ […] milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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Ir para
Esta noite um gato chorou tanto que tive uma das mais profundas compaixões pelo que é
vivo. Parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. Mas seria dor, ou era “ir”, “ir para”?
Pois o que é vivo vai para.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

§

O processo
– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou
aguentando viver.
– Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o
desespero é uma luz, e um amor.
– E depois?
– Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
– Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
– Será que todas as vidas foram isso?
– Acho que sim.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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Sim
Eu disse a uma amiga:
– A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
– Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.
– Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ … os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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Medo do desconhecido
Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa
desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
– Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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É preciso parar
Estou com saudades de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.
– Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 2008

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Entre aspas
Quando mexo em papeis antigos, isto significa exteriormente alguma poeira, e interiormente raiva de mim mesma: porque, nunca me convencendo que tenho má memória, copio entre aspas frases ou textos e depois, passado um tempo, como não anotei, pensando que não esqueceria, o nome dos autores, já não sei quem os disse. Por exemplo:

“Vemos que aqui na terra os opostos se misturam, que um valor positivo se compra ao preço de um valor negativo. E, talvez, a experiência metafísica a mais profunda – a que vem quando o ser toma consciência do absoluto, o que lhe dá estremecimento do sagrado e deixa-o entrever a felicidade, aquela que lhe permite o acesso ao sobrenatural – talvez essa experiência só seja possível quando a alma está tão deslocada que não lhe é mais possível reerguer-se de sua ruína.”

“O que parece incoerente à fria análise pode às vezes estar carregado de sentido para o coração, e este o entende.”

“Não se saberia adquirir o conhecimento intuitivo de um outro universo sem sacrificar uma parte do entendimento que nos é necessário no mundo presente.”
– Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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LAÇOS DE FAMÍLIA

❝ Mas as palavras que uma pessoa pronunciava quando estava embriagada era como se estivesse prenhe — palavras apenas na boca, que pouco tinham a ver com o centro secreto que era como uma gravidez.
— Clarice Lispector, no livro “Laços de família”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

❝ Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ …estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ …é preciso ser maior que a culpa.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ …sem estar agora sendo irônica, sou uma mulher de espírito.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ A esperança de quê? Pela primeira vez eu me espantava de sentir que havia fundado toda uma esperança em vir a ser aquilo que eu não era.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ … minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”, Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”, Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois “eu” é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior – é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana – e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.
E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”, Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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❝ Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
— Clarice Lispector, no livro “A paixão segundo G.H”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

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UM SOPRO DE VIDA

❝ A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e entra. Não quero ser vítima do acaso libertador. Quero eu mesmo ter a chave do mundo e transpô-lo como quem se transpõe da vida para a morte e da morte para a vida.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ Estou ouvindo música. Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia, refluindo e fluindo. Bach é matemático. Mozart é o divino impessoal. Chopin conta a sua vida mais íntima. Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo o mundo. Beethoven é a emulsão humana em tempestade procurando o divino e só o alcançando na morte. Quanto a mim, que não peço música, só chego ao limiar da palavra nova. Sem coragem de expô-la. Meu vocabulário é triste e às vezes wagneriano-polifônico-paranóico. Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere. Sou uma paisagem cinzenta e azul. Elevo-me na fonte seca e na luz fria.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ De nervosa quebrei um copo. E o mundo estourou. E quebrei espelho. Mas não me olhei nele.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ Ver é a pura loucura do corpo.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ Vida, vida recoberta em um véu de melancolia. Morte: farol que me guia em rumo certo. Sinto-me magnífico e solitário entre a vida e a morte.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ No ano 40000 estou tão morta. Que nem você. Cuidado, muito cuidado, meu senhor.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ Eu me destilei todo: estou limpo que nem água de chuva.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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❝ De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

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UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES

❝ Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento: a luz da aurora.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

§

❝ …agir sem se conhecer exige coragem.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

§

❝ …é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violência nos salvam das grandes.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ …lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Saiba também calar-se para não se perder em palavras.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

§

❝ Eles pareciam saber que quando o amor era grande demais e quando um não podia viver sem o outro, esse amor não era mais aplicável: nem a pessoa amada tinha a capacidade de receber tanto.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

§

❝ Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
— Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1998.

PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM

❝ — O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si? Utilizar-se como corpo e alma em proveito do corpo e da alma? Ou transformar sua força em força alheia? Ou esperar que de si mesma nasça, como uma consequência, a solução?
— Clarice Lispector, no livro “Perto do coração selvagem”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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❝ Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
— Clarice Lispector, no livro “Perto do coração selvagem”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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MINHAS QUERIDAS

❝ … farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como responsabilidade na pessoa que o recebe.
— Clarice Lispector, no livro “Minhas queridas”. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

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APRENDENDO A VIVER

❝ Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.
— Clarice Lispector, no livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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❝ Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
— Clarice Lispector, no livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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❝ Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
— Clarice Lispector, no livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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A revolta
Quando tiraram os pontos de minha mão operada, por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus.
– Clarice Lispector, no livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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❝ Há pessoas que têm vergonha de viver: são os tímidos, entre os quais me incluo. Desculpem, por exemplo, estar tomando lugar no espaço. Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas. Vai, Carlos, vai ser gauche na vida. (Não sei se estou citando Drummond do modo certo, escrevo de cor.)
— Clarice Lispector, na crônica “Vergonha de viver”, no livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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PARA NÃO ESQUECER

❝ Além do vento há uma outra coisa que sopra.
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto – que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral.
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram.
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

§

❝ Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto – que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral.
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
– Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Futuro de uma delicadeza
– Mamãe vi um filhote de furacão, mas tão filhotinho ainda, tão pequeno ainda, que só fazia mesmo era rodar bem de leve umas três folhinhas na esquina…
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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Como se chama
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente – como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota – como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e este é o nome.
– Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Se eu tivesse que dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa.
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”, Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Ah, mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os erros dos outros, então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores, em flores, em coisas leves, em amor.
— Clarice Lispector, no livro: “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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❝ Outono era a estação de que mais gostava porque não era preciso sair para vê-lo: atrás dos vidros as folhas caíam amareladas no pátio, e isso era o outono.
— Clarice Lispector, no livro “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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Aniversário
– Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.
Pausa, tristeza:
– Mamãe, minha alma não tem dez anos.
– Quanto tem?
– Só uns oito.
– Não faz mal, é assim mesmo.
– Mas eu acho que se devia contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com vinte anos de alma. E o cara tinha morrido mas era com setenta anos de corpo.
– Clarice Lispector, no livro: “Para não esquecer”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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ONDE ESTIVESTES DE NOITE

❝ É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve.
— Clarice Lispector, no livro “Onde estivestes de noite”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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A LEGIÃO ESTRANGEIRA

❝ […] durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo.
— Clarice Lispector, no livro ”A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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CORRESPONDÊNCIA

❝ Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
— Clarice Lispector, no livro “Correspondências – Clarice Lispector”. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

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CARTAS

❝ Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse seu único meio de viver.
— Clarice Lispector, em carta a uma amiga brasileira – Berna, 2 de janeiro de 1947.

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ENTREVISTA

❝ Suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato.
— Clarice Lispector, em sua última entrevista – concedida a Júlio Lerner (TV Cultura), 1977.

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Saiba e leia mais sobre Clarice Lispector:
:: Clarice Lispector – um mistério
:: Clarice Lispector – fortuna crítica
:: Clarice Lispector – contos, crônicas e entrevistas

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