Paul Gauguin -A seashore - 1887

Saí ave no abismo que me circundava
qual profundidade extensiva proporcional ao grito
que na queda clama a sustentabilidade do voo

Inesgotável fonte de mutantes rotações
Arte que ilumina a gravidade desconstrutiva
de extrema possessão
quebrada pela sublimação dèntrega
alucinada na procura extasiada da morte
na redondíssima e apaziguadora matéria do sonho

Quebro todas as barreiras
rasgo todos os selos de obscuras iluminuras
e mergulho na mais incógnita abstração

Deambulo por dentro de ecos
ancestral proficuidade
Que o tempo me conceda o privilégio
de me nascerem asas para acompanhar o Agris voo
Agris voo
– Cíntia Gonçalves André, em “Agris Magazine: Tundavala”. [coordenação editorial Helder Silvestre Simba André]. 2ª ed., Luanda/Angola: Movimento Litteragris©, 2016.

§

Que resta do resoluto ser que mergulha
na luz ténue da noite
e procura
no interior da fala
o luminoso sumo de uma laranja
a arder nos lábios do sol?

Que é feito da rosa aberta
à solicitude dos dedos
à presença do orvalho
onde umàranha mistifica as horas
na espera de ser o voo
na perfeita relação do aprisionado instante?

Que é feito de mim
quando o crepúsculo do olhar
pousa no entardecer do ventre
e àurora do teu ego desponta nos meus lábios?

Que é feito sim
deste corpo que se esvai
em pensamentos alados e nidifica na memória?

“???”
– Cíntia Gonçalves André, em “Agris Magazine: Tundavala”. [coordenação editorial Helder Silvestre Simba André]. 2ª ed., Luanda/Angola: Movimento Litteragris©, 2016.

§

Vaguear a terra pelo céu
num amontoado de estrelas
Cair levemente
sobre o algodão do sonho

Imaginar um nome
para a lenta observação

Fluir onde a cor do limão
é a luz do muro
a sede prolongada
numa manhã de noite bebida
até à última gota do suor translúcido

Na face de uma amarga confidência
absorver a nocturna brisa no rosto
esperando a luz extenuada
no exagero da cor
com as mãos acesas no olhar dos astros
onde ninguém adivinha a nudez do sangue
no cansaço das palavras sussurradas
O olhar dos astros
– Cíntia Gonçalves André, em “Agris Magazine: Tundavala”. [coordenação editorial Helder Silvestre Simba André]. 2ª ed., Luanda/Angola: Movimento Litteragris©, 2016.

§

SOBRE A POETA ANGOLANA CÍNTIA GONÇALVES ANDRÉ 
No cair de folhas, dum 4 de Outubro, dum 1995, que nunca mais regressou ao crepúsculo, em rubro, anunciava-se o nascer do cruzamento da ramificação de duas árvores fortes de almas azuis, a que chamavam Madalena Gonçalves e Domingos André, de amor infinito, que num luar de mel, soletrando raízes imaginárias, quando o vento lhes fazia dançar no sonho da rotina da vida a alegria do nascer de Cíntia Gonçalves André, despertada num grito que o silêncio insistia em abafar, na selva de Luanda, quando invioláveis estrelas emergiam de tão linda e histórica que nela o oculto tece e destece a morte do tronco que com vida lhe nasceu.

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