Elenco de 'Praia do futuro'

De uns anos pra cá, o cinema brasileiro abraçou o mundo LGBT de maneira consistente, não apenas na quantidade de filmes, mas sobretudo pela qualidade delas. Quase desnecessário lembrar de longas instigantes, como “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda, “Flores raras” (2013) de Bruno Barreto ou “Praia do futuro” (2014) de Karim Ainouz – este, dono do mérito de mostrar a homoafetividade de forma franca, sem dar “explicações” ao espectador de que seria um filme “marginal”, para um “público específico”: antes de ser um filme “gay”, é um filme sobre as complicações do amor, o drama dos relacionamentos e a busca de um porto seguro num mundo caótico.

Tais “explicações”, contudo, costumam ser frequentes. Em filmes recentes como “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014), de Daniel Ribeiro, a luta contra o preconceito beira à militância. Com outras produções, como “Beira mar” (2015), de Felipe Matzembacher, não é muito diferentes: jovens meninos que pouco a pouco vão descobrindo o amor entre si, mais ou menos como o casal em “Os amantes” do Louis Malle.

“Tatuagem” ou “Praia do futuro” são produto de nosso tempo, aparentemente mais tolerante. E claro, nem sempre foi assim. É difícil para o pesquisador do cinema brasileiro encontrar muitos exemplares no passado, embora muitas obras instigantes abordem o assunto de forma lateral ou mais velada, ou apenas en passent. Mais fácil encontrar personagens gays no cinema brasileiro pela chave cômica, em geral preconceituosa, estereotipada.

Jesuíta Barbosa e Irandhir Santos em “Tatuagem”: Fonte: Almanaque Virtual

“O menino e o vento” (1967), obra belíssima do genial Carlos Hugo Christensen, transportava o assunto para trama; um menino, desaparecido, teria relações com o personagem principal, vivido por Ênio Gonçalves. Mas as preocupações do filme são de outra ordem, mais poéticas. O assunto ressurge em “O beijo da mulher aranha” (1984), de Babenco, embora aqui o político se sobressaia. E personagens gays há aos montes, no “Giselle” (1980) de Victor Di Mello, “Embalos de Ipanema” (1978) de Antonio Calmon, “Corpo devasso” (1980) de Alfredo Sternheim, no “Rainha diaba” (1974) de Antônio Carlos Fontoura etc.

Um registro curioso é “Amor maldito” (1984). Pode estar longe de ser um grande filme, mas o longa de Adélia Sampaio coloca no olho do furacão o tema do preconceito, num drama de tribunal em que a moça vivida por Monique Lafond é acusada de matar a amante. O que se julga em “Amor maldito” não é a morte da moça, mas sua sexualidade, e estávamos ainda num Brasil pouco acostumado à liberdade de expressão, em fins do regime militar. “Vera”, (1987), de Sérgio Toledo, com admirável atuação de Ana Beatriz Nogueira, é outro momento importante, inspirado num caso real e muito mais interessante que qualquer “Garota dinamarquesa” da vida.

“Aqueles dois” (1985), dirigido por Sérgio Amon, merece ser visto com carinho. Adaptação de Caio Fernando Abreu, é menos um filme LGBT e mais um delicado protesto contra o preconceito. Trama simples, e infelizmente facilmente vivenciada na vida real nos miseráveis ambientes de trabalho, repartições, bancos e afins: dois amigos debom gosto, cultos, afáveis, num mundo de ogros. Logo, são tidos como “imorais”, “pervertidos”, alvo de brincadeiras nojentas.

Geraldo Vietri e “Os imorais”: atenção, spoiler!

“Os imorais”, aliás, é o título de um dos melhores e mais corajosos filmes sobre o assunto. Película de 1979, dirigida por Geraldo Vietri, belíssimo e angustiante melodrama, cujo título pode causar estranhamento. É como se houvesse uma “proteção”, talvez um “pré-julgamento” com esse “os imorais”, um “não temos nada com isso, o espectador que julgue”. No longa, porém, o espaço para ambiguidades é pequeno. Vivemos a história do irascível playboy Mário (João Francisco Garcia), interessado em Glória (Sandra Bréa). Para isso, se vale da mediação do cabeleireiro Gustavo (Paulo Castelli), que por sua vez está encantado com Mário.

O universo e o destino parecem ter planos diferentes, no entanto, e assim como “Beijo no alfalto” do Nelson, nada é o que parece ser. Ou melhor: tudo se transmuta rapidamente. A dor e solidão do jovem homossexual, Gustavo, por não ser correspondido e até agredido, se metamorfoseia em amizade com o Mário, impulsivo e mulherengo, que quer “transformá-lo em homem”. E Gustavo, inexperiente, agora está de fato apaixonado, mas por uma moça (vivida por Aldine Muller). E é Mário, agora, quem não irá se conformar com a situação.

Fechando

“Os imorais” encanta pelo ritmo delicado, melancólico, cheio de compaixão para com seus carentes personagens. É um filme de desconstruções, um trabalho sobre a complexidade da sexualidade e a idiotice do preconceito e pode ser conferido no YouTube ou via Making Off,

Para encerrar: um agradecimento imenso a Andrea Ormond, crítica e pesquisadora, dona do belíssimo Estranho Encontro, no qual há textos sobre “Os imorais” e quase todos os demais filmes aqui citados. Sem as dicas da Andrea – sobretudo a importância do filme de Geraldo Vietri, este pequeno texto simplesmente não existiria.

* André de Paula Eduardo é jornalista, formado na Unesp, onde fez mestrado em Comunicação. Pesquisa cinema brasileiro, torce pro Santos e é apaixonado por Brahms e Pink Floyd. Colunista e colaborador da Revista Prosa Verso e Arte.

Leia aqui outras Colunas de André de Paula Eduardo:
:: Andre de Paula Eduardo – colunista

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS