Jorge Amado e Dorival Caymmi - foto: Anizio Carvalho (recorte)

Caymmi, irresistível

Dorival Caymmi e Jorge Amado se conheceram já adultos, em 1939, “apresentados por uns estudantes na avenida Rio Branco, entre o Café Nice e o Café Belas Artes”, lembra o cantor e compositor. A amizade se tornaria cada vez mais forte, como mostra esta carta em que Caymmi conta ao “irmão”, que estava morando na Inglaterra, novidades palpitantes de seu cotidiano, a que não faltam observações divertidamente maliciosas.

“[Salvador, 30 de setembro de 1976]

Jorge meu irmão,

São onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Iemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína,[1] nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês. Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer um blusão e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu[2] na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano.[3] De inveja, Carybé quase morreu, e Jenner,[4] imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí.

O tempo que tenho mal chega para viver: visitar dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau,[5] me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu.

Por falar nisso, Stela de Oxossi é a nova iyalorixá do Axé[6] e, na festa da consagração, equedes e iaôs,[7] todos na roça perguntavam onde anda Obá[8] Arolu[9] que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui, é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho da puta é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James[10] e de João Ubaldo [Ribeiro], daquelas duas línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Iemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar e na Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher, Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho.

A bênção, meu padrinho, Oxossi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, sua casa é aqui e eu sou seu irmão Caymmi.”

[1] N.S.: Janaína é também conhecida como Iemanjá.
[2] N.S.: Ápio Patrocínio da Conceição (1915-1994), conhecido como Camafeu de Oxossi, foi mestre de capoeira, presidente do Afoxé Filhos de Gandhi e Obá no Axé do Opô Afonjá, que frequentava com Carybé, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Tinha três barracas no Mercado Modelo.
[3] N.S.: Clóvis Graciano (1907-1988), pintor, desenhista, gravador, ilustrador e muralista brasileiro.
[4] N.S.: Jenner Augusto (1924-2003), pintor brasileiro.
[5] N.S.: Mirabeau Sampaio (1911-1993), médico, empresário, pintor, desenhista e professor universitário brasileiro.
[6] N.S.: Axé do Opô Afonjá, em Salvador, é uma das mais importantes casas de culto afro-brasileiro do país.
[7] N.S.: No candomblé, filhos e filhas de santo que entram em transe são chamados iaôs, ou feitos e feitas. Os homens que não entram em transe são designados ogãs, e as mulheres, equedes.
[8] N.S.: Obá é um orixá guerreiro cultuado no Axé do Opô Afonjá.
[9] N.S.: Título honorífico que Jorge Amado recebeu no Axé do Opô Afonjá.
[10] N.S.: James Amado (1922-2013), escritor e irmão caçula de Jorge Amado.

Fonte: Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado | Publicado pelo Correio IMS

Leia mais sobre Caymmi e Jorge Amado:
:: Dorival Caymmi – entrevista: em busca do mais simples
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:: Jorge Amado e o seu Brasil mestiço – alegre – festeiro e sensual (Biografia e fortuna crítica)
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