©Winslow Homer

Sei que não atentaram na mulher; nem fosse possível. Vive-se perto demais, num lugarejo, às sombras frouxas, a gente se afaz ao devagar das pessoas. A gente não revê os que não valem a pena. Acham ainda que não valia a pena? Se, pois, se.
No que nem pensaram; e não se indagou, a muita coisa. Para quê? A mulher — malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feita tonta, no crime não arrependida — e guia de um cego. Vocês todos nunca suspeitaram que ela pudesse arcar-se no mais fechado extremo, nos domínios do demasiado?
Soubessem-lhe ao menos o nome. Não, pergunto, e ninguém o inteira.
Chamavam-na de a MulaMarmela, somente, a abominada. A que tinha dores nas cadeiras: andava meio se agachando; com os joelhos para diante. Vivesse embrenhada, mesmo quando ao claro, na rua. Qualquer ponto em que passasse parecia apertado. Viam-lhe vocês a mesmez — furibunda de magra, de esticado esqueleto, e o se sumir de sanguexuga, fugidos os olhos, lobunos cabelos, a cara; — as sombras carecem de qualquer conta ou relevo. Sabe-se se assustava-os seu ser: as fauces de jejuadora, os modos, contidos, de ensalmeira? Às vezes, tinha o queixo trêmulo. Apanhem-lhe o andar em ponta, em sestro de égua solitária; e a selvagem compostura. Seja-se exato.
E nem desconfiaram, hem, de que poderiam estar em tudo e por tudo enganados?
Não diziam, também, que ela ocultava dinheiro, rapinicado às tantas esmolas que o cego costumava arrecadar? Rica, outromodo, sim, pelo que do destino, o terrível. Nem fosse reles feiosa, isto vocês poderiam notar, se capazes de desencobrir-lhe as feições, de sob o sórdido desarrumo, do sarro e crasso; e desfixar-lhe os rugamentos, que não de idade, senão de crispa expressão. Lembrem-se bem, façam um esforço.
Compesem-lhe as palavras parcas, os gestos, uns atos, e tereis que ela se desvendava antes ladina, atilada em exacerbo. Seu antigo crime? Mas sempre escutei que o assassinado por ela era um hediondo, o cão de homem, calamidade horribilíssima, perigo e castigo para os habitantes deste lugar. Do que ouvi, a vocês mesmos, entendo que, por aquilo, todos lhe estariam em grande dívida, se bem que de tanto não tomando tento, nem essa gratidão externassem. Tudo se compensa. Por que, então, invocar, contra as mãos de alguém, as sombras de outroras coisas?
O cego pedia suas esmolas rudemente. Xingava, arrogava, desensofrido, dando com o bordão nas portas das casas, no balcão das vendas. Respeitavam-no, mesmo por isso, jamais se viu que o desatendessem, ou censurassem ou ralhassem, repondo-o em seu nada. Piedade? Escrúpulo? Mais seria como se percebessem nele, de obscuro, um mando de alma, qualidade de poder. Chamava-se o Retrupé, sem adiante. Como a MulaMarmela, os dois, ambos: uns pobres, de apelido. E vocês não veem que, negando-lhes o de cristão, comunicavam, à rebelde indigência de um e outra, estranha eficácia de ser, àparte, já causada?
Ao Retrupé com seu encanzinar-se, blasfemífero, e prepotente esmolar, ninguém demorava para dar dinheiro, comida, o que ele quisesse, o pão-por-deus. — “Ele é um tranca!” — o cínico e canalha, vilão. Mas só, às vezes, alguém, depois e longe, se desabafava. O homem maligno, com cara de matador de gente. Sobre os trapos, trazia um facão, pendente. Estendia, imperioso, sua mão de tamanho. E gritava, com uma voz de cão, superlativa.
Se alguém falasse, ou risse, ele parava, esperava o silêncio. Escutava muito, ao redor de si. Mas nunca ouvia tudo; não sabia nem podia.
Tinha medo, também; disso, vocês nunca desconfiaram. Temia-a, a ela, à mulher que o guiava. A MulaMarmela chamava-o, com simples sílaba, entre dentes, quase esguichado um “ei” ou “hã” — e o Retrupé se movia de lá, agora apalpante, pisando com ajuda; balançava o facão, a bainha presa a um barbante, na cintura. Sei que ele, leve, breve, se sacudira. Desciam a rua, dobraram o beco, acompanharamse por lá, os dois, em sobrossoso séquito. Rezam-se ódio. Lé e cré, pelas ora voltas, que qual, que tal, loba e cão. Como era que ficavam nesse acordo de incomunhão, malquerentes, parando entre eles um frio figadal? O cego Retrupé era filho do finado marido dela, o Mumbungo, que a MulaMarmela assassinara.
Vocês sabem, o que foi há tantos anos. Esse Mumbungo era célebre-cruel e iníquo, muito criminoso, homem de gostar do sabor de sangue, monstro de perversias. Esse nunca perdoou, emprestava ao diabo a alma dos outros. Matava, afligia, matava.
Dizem que esfaqueava rasgado, só pelo ancho de ver a vítima caretear. Será a sua verdade?
Nos tempos, e por causa dele, todos estremeciam, sem pausa de remédio. Diziam-no maltratado do miolo. Era o punir de Deus, o avultado demo — o “cão”. E, no entanto, com a mulher, davam-se bem, amavamse. Como? O amor é a vaga, indecisa palavra. Mas, eu, indaguei. Sou de fora. O Mumbungo queria à sua mulher, a MulaMarmela e, contudo, incertamente, ela o amedrontava. Do temor que não se sabe. Talvez pressentisse que só ela seria capaz de destruí-lo, de cortar, com um ato de “não”, sua existência doidamente celerada. Talvez adivinhasse que em suas mãos, dela, estivesse já decretado e pronto o seu fim. Queria-lhe, e temia-a — de um temor igual ao que agora incessante sente o cego Retrupé. Soubessem, porém, nem de nada. A gente é portador.
O cego Retrupé é grande, forte. Surge, de lá, trazido pela MulaMarmela agora se conduz firme, não vacila. Dizem que bebe? Vejam vocês mesmos, porém, como essas petas escondem a coisa singular. Todos sabem que ele não bebia, nunca, porque a MulaMarmela não deixava. Nem carecia de falar-lhe a paz da proibição: dava-lhe, apenas, um silêncio, terrível. E ele cumpria, tinha a marca da coleira. Curtia afogados desejos, indecifrava-os. Aspirava, à porta dos botequins, febril, o espírito das cachaças. Seguia, enfim, perfidiado e remisso, mal-agradecido, raivoso, os dentes do rato rangiam-no. Porque, ele mesmo, não sabendo que não havia de beber, o que não fosse — ah, se! — o sangue das pessoas. Porque sua sede e embriaguez eram fatais, medonhas outras, para lá do ponto. Seria ele, realmente, uma alma de Deus, hão certeza? Ah, nem sabem. Podia também ser de outra essência — a mandada, manchada, malfadada. Dizem-se, estórias. Assim mesmo no tredo, estado em que tateia, privo, malexistente, o que é, cabidamente, é o filho tal-pai-tal; o “cão”, também, na prática verdade.
O pai, o Mumbungo, se vivia bem com a mulher, a MulaMarmela, e se ela precisava dele, como os pobres precisam uns dos outros, por que, então, o matou?
Vocês nunca pensaram nisso, e culparam-na. Por que hão de ser tão infundados e poltrões, sem espécie de perceber e reconhecer? Mas, quando ela matou o marido, sem que se saiba a clara e externa razão, todos aqui respiraram, e bendisseram a Deus. Agora, a gente podia viver o sossego, o mal se vazara, tão felizmente de repente. O Mumbungo; esse, foi o que tivera de se revoltar a um outro lugar, foi como alma que caiu no inferno. Mas não a. recompensaram, a ela, a MulaMarmela ao contrário: deixaram-na no escárnio de apontada à amargura, e na muda miséria, pois que eis. Matou o marido, e, depois, própria temeu, forte demais, o pavor que se lhe refluía, caída, dado ataque, quase fria de assombro de estupefazimento, com o cachorro uivar. E ela, então, não riu. Vocês, os que não a ouviram não rir, nem suportam se lembrar direito do delirido daquela risada.
Se eu disser o que sei e pensam, vocês inquietos se desgostarão. Nem consintam, talvez, que eu explique, acabe. A mulher tinha de matar, tinha de cumprir por suas mãos o necessário bem de todos, só ela mesma poderia ser a executora — da obra altíssima, que todos nem ousavam conceber, mas que, em seus escondidos corações, imploravam.
Só ela mesma, a Marmela, que viera ao mundo com a sina presa de amar aquele homem, e de ser amada dele; e, juntos, enviados. Por quê? Em volta de nós, o que há é a sombra mais fechada — coisas gerais. A MulaMarmela e o Mumbungo, no fio a fio de sua afeição, suspeitassem antecipadamente da sanção, e sentença? Temia-a, ele, sim, e o amor que tinha a ela colocava-o àmercê de sua justiça. A Marmela, pobre mulher, que sentia mais que todos, talvez, e, sem o saber, sentia por todos, pelos ameaçados e vexados, pelos que choravam os seus entes parentes, que o Mumbungo, mandatário de não sei que poderes, atroz sacrificara. Se só ela poderia matar o homem que era o seu, ela teria de matá-lo. Se não cumprisse assim — se se recusasse a satisfazer o que todos, a sós, a todos os instantes, suplicavam enormemente — ela enlouqueceria? A cor do carvão é um mistério; a gente pensa que ele é preto, ou branco.
E outra vez vejo que vêm, pela indiferente rua, e passam, em esmolambos, os dois, tão fora da vida exemplar de todos, dos que são os moradores deste sereno nosso lugar. O cego Retrupé avança, fingindo-se de seguro, não dá à MulaMarmela a ponta do bordão para segurar, ela o guia apenas com sua dianteira presença, ele segue-a pelo jeito, pelo se deslocar do ar — como em trasvoo se vão os pássaros; ou o que ele percebe à sua frente é a essência vivaz da mulher, sua sombrada-alma, fareja-lhe o odor, o lobum? Notem que o cego Retrupé mantém sempre muito levantada a cabeça, por inexplicado orgulho: que ele provém de um reino de orgulho, sua maligna índole, o poder de mandar, que estarrece. E ele traz um chapéu chato, nem branco nem preto. Viram como esse chapéu lhe cai muitas vezes da cabeça, principalmento quando ele mais se exalta, gestiongado abarbarado e maldoso, reclamando com urgência suas esmolas do povo. Mas, notaram como é que a MulaMarmela lhe apanha do chão o chapéu, e procura limpá-lo com seus dedos, antes de lho entregar, o chapéu que ele mesmo nunca tira, por não respeitar a ninguém? Sei que vocês não se interessam nulo por ela, não reparam como essa mulher anda, e sente, e vive e faz. Repararam como olha para as casas com olhos simples, livres do amaldiçoamento de pedidor? E não põe, no olhar, as crianças, o soturno de cativeiro que destinaria aos adultos. Ela olha para tudo com singeleza de admiração.
Mas vocês não podem gostar dela, nem sequer sua proximidade tolerem, porque não sabem que uma sina forçosa demais apartou-a de todos, soltou-a. Apara, em seu de-cor de dever, o ódio que deveria ir só para os dois homens. Dizem-na maldita: será; e?
Porém, isto, nunca mais repitam, não me digam: do lobo, a pele; e olhe lá! Há sobrepesos, que se levam, outros, e são a vida.
Mas, com tanto, está que ninguém sabe o que entre os dois verdadeiramente se compassa — do desconchavo e desacerto de assim perambularem, torvos, no monótono, em farrapos, semoventes: do que vocês apenas se divertem, tiram graças e chocarra.
Se o que os há é apenas embruxar e odiar, loba contra cão, ojeriza e osga; convocam demônios? Ou algum encoberto ultrapassar — posto o que também há: uma irmandade das almas más, alcateia e matilha? Não, não há ódio; engano. Ela, não.
Ela cuida dele, guia-o, trata-o — como a um mais infeliz, mais feroz, mais fraco. Desde que morreu o homem-marido, o Mumbungo, ela tomou conta deste. Passou a cuidá-lo, na reobriga, sem buscar sossego. Ela não tinha filhos. — “Ela nunca pariu.” — vocês culpam-na. Vocês, creio, gostariam de que ela também se fosse, desaparecesse no não, depois de ter assassinado o marido. Vocês odeiam-na, destarte.
Mas, se ela também se tivesse matado, que seria de vocês, de nós, das muitas mãos do Retrupé, que ainda não estava cegado, nos tempos; e que seria tão pronto para ser sanguinaz e cruel-perverso quanto o pai — e o que renega de Deus — da pele de Judas de tão desumana e tremenda estirpe, de apavor?
Seus os-olhos, do Retrupé, ainda eram sãos: para espelhar inevitável ódio, para cumprir o dardejar, e para o prazer de escolher as vítimas mais fáceis, mais frescas.
Só aí, se deu que, em algum comum dia, o Retrupé cegou, de ambos aqueles olhos. Souberam vocês como foi? Procuraram achar? Sabem, contudo, que há leites e pós, de plantas, venenos que ocultamente retiram, retomam a visão, de olhos que não devem ver. Só com isso, sem precisão de mais, e já o Retrupé parava, um ser quase inócuo, um renunciado. E vocês, bons moradores do lugar, ficavam defendidos, a cobro de suas infrenes celeradezas. Talvez, ele não precisasse de danado morrer como o Mumbungo, seu pai. Talvez, me pergunto, o próprio Mumbungo descarecesse de ser morto, se acaso, por ponto, alguém pensasse antes nessas ervas cegadoras, ou soubesse já então de sua aplicação e efeito. Se assim, pois, haver-se-ia agora a MulaMarmela guiando a dois, pelas ruas, e deles com terrível dever-de-amor cuidando, como se fossem os filhos que ela queria, os que ela não pariu nem parirá, nunca — o dócil morto e o impedido cego; a pacto de tolher-lhes as ainda possíveis malícias, e dar-lhes, como em sua antiquissima linguagem ela diz: gasalhado e emparo.


Vocês, porém, fio que nem nunca lhe escutaram a voz — à surda.
Também o cego Retrupé se intimida dessa voz, rara tanto. Sabem o que é tão estúrdio? — que, mesmo um que não vê, sabe que precisa de apartar a cabeça: ele faz isso, para não encarar com a mulher odiosa. O cego Retrupé volta-se de frente para o ponto onde estão as sensatas, quietas pessoas, que ele odeia em si, pelo desprezamento de todos, na pacatez e concórdia. Ele precisava de matar, para a fundo se cumprir, desafogado e bem. Mas, não pode. Porque é cego, apenas. O cego Retrupé, sedicioso, então, insulta, brada espumas, ruge — nas gargantas do cão. Sabe que é de outra raça, que vem do ainda horroroso, informe; que ainda não entendeu a mansidão, pelo temor? Então, o cego Retrupé esbarra com o impoder da cegueira; agora, ele não pode alcançar ninguém, se a raiva mais o cega; pode? O cego Retrupé cochicha consigo — ele ofende o invisível. Para ele, graças à cegueira, este nosso mundo já é algum além. E se assim não fosse? Alguém seria capaz de querer ir pôr o açamo no cão em dana? E vocês ainda podem culpar esta mulher, a Marmela, julgá-la, achá-la vituperável? Deixem-na, se não a entendem, nem a ele. Cada qual com sua baixeza; cada um com sua altura.
Saibam ver como ela sabe dar descargo de si. Sim, ela é inobservável; vocês não poderiam. Mas, reparando com mais tento, veriam, pelo menos, como ela não écapaz de pegar estouvadamente em alguma coisa; nem deixa de curvar-se para apanhar um caco de vidro no chão da rua, e pô-lo de lado, por perigoso. Ela abaixa assaz os olhos. Pelo marido, seu morto; pode, porque o matou sem inúteis sofrimentos. Se não o matasse, ele se teria condenado ainda mais? Ela afasta do botequim o cego Retrupé, turbador, remisso e bulhento. Só este é o seu, deles, diálogo: um pigarro e um impropério. Ele a segue, canínamente. Vãose; nunca nenhum de vocês os observou, a gente não consegue nem persegue os fios, feixes dos fatos. Vivem em aterrador, em coisa de silêncio, tão juntos, de morar em esconderijos. A luz é para todos; as escuridões é que são apartadas e diversas.
Diziam que, em outro tempo, ao menos, entre eles teria havido alguma concubinagem. Cambonda? Nocês sabem que isso é falso; e como a gente gosta de aceitar essas simples, apaziguadoras suposições. Sabem que o cego Retrupé, canhim e discordioso, ela mesma o conduz, paciente, às mulheres, e espera-o cá fora, zela para que não o maltratem. Isto, porém, faz tempo. Hoje ele está envelhecido, virou em macilento, grisalho, as cãs assentam-lhe bem, quando o chapéu cai. Estes tempos, durante que deixamos de conhecê-los e averiguá-los. O cego Retrupé anda meio caído, amorviado, em escanifro e escanzelo. Parece que, ao mesmo passo, seu modo de medo da MulaMarmela muda e aumenta. Fraqueia-lhe também a fúria alastradora e áspera de viver: não exerce com o mesmo entono puxar pelo seu direito — o feroz direito de pedir.
Parece que seu temor fazia-o murmurar queixumes, súplicas, à MulaMarmela. E, no entanto, ela cada dia para com ele mais se abranda, apiedada de seu desvalor.
Mas ele não crê, não pode saber, não confia dela, nem da gente. O entressentir-se, entre as pessoas, vem de regra com exageros, erro, e retardo. Ele sussurra disfarçada e impessoalmente seus pedidos de perdão; vocês notaram? A MulaMarmela ouvia-o, sem parecer que. Fugia de olhá-lo. Sei, vocês não notaram, nada. E, mesmo, agora, vocês se sentem um pouco mais garantidos, tranquilos estamos. É de crer que, breve, estaremos livres do que não amamos, do que danadamente nos enoja, pasma.
Conta-se-me que ele quis matá-la. Em hora em que seu medo se derramou maior, saber-se-á lá por quê? Tido que já se estava maltreito, quando adoeceu, mal, de febre acesa. Sentara-se à beira da rua, para arquejar. De repente, levantou-se, sem bordão, estorvinhado, gritou, bramou: exaltado como um cão que é acordado de repente. Sacou o facão, tacava-o, avançava às doidas, às mesmo cegas, tentando golpeá-la, em seu desatinado furor. E ela, erguida onde estava, permaneceu, não se moveu, não se intimidava? Olhava na direção do não. Se ele acertasse, poderia em carnes trucidá-la. Mas, aos poucos, acreditou que o facão não a encontraria nunca, sentiu-se desamparado demais e sozinho. Temeu, de todo em pé. O facão lhe caiu da mão.
Seu medo não tinha olhos para encher.
Parece que gemeu e chorou: — “Mãe… Mamãe… Minha mãe!…” — esganiçado implorava, quando retombou sentado no chão, cessada a furibundância; e tremia estremecidamente, feito os capins dos pastos.
Estava já no fino do funil, é de crer que. A MulaMarmela, ela veio, se chegou, sem dizer nem o sussurrar. Apanhou-lhe o chapéu, limpou-o, tornou-o a pôr na cabeça dele, e trouxe também o facão, recolocou-o em sua cintura, na velha bainha. Ele, com o se apequenar de sofrer e tremer, semelhava um bicho do fundo da floresta. Diz-se que ela teria lágrimas nos olhos; que falou, soturna de ternuras terríveis — “Meu filho…” E olhou para uma banda, disse a alguma coisa mais, como se falando ao outro; soluçava, também, pelo Mumbungo, seu reconduzido marido, por sua parte, de seu ato. Disso, vocês não quererão saber, são em-diabas confusões, disso vocês não sabem. E, se, para quê? Se ninguém entende ninguém; e ninguém entenderá nada, jamais; esta é a prática verdade.
Sim, os dois, ficaram, até ao anoitecer, e pela noite entrada, naquela solidão próxima, numa beira de cerca. Alguém os acudiu? Diz-se que ele padecia uma dor terrivelmente, de demasiado castigo, e uma sufocação medonha de ar, conforme nem por uma esperança ainda nem não agoniava. Só estrebuchava. Não viram, na madrugada, quando ele lançou o último mau suspiro. Sim, mas o que vocês creem saber, isto, seriamente afirmam: que ela, a MulaMarmela, no decorrer das trevas, foi quem esganou estranguladamente o pobre-diabo, que parou de se sofrer, pelos pescoços; no cujo, no corpo defunto, após, se viram marcas de suas unhas e dedos, craváveis. Só não a acusaram e prenderam, porque maior era o alívio de a ver partir, para nunca, daí que, silenciosa toda, como era sempre, no cemitério, acompanhou o cego Retrupé às consolações.
Vocês, distantemente, ainda a odiavam?
E ela ia se indo, amargã, sem ter de se despedir de ninguém, tropeçante e cansada. Sem lhe oferecer ao menos qualquer espontânea esmola, vocês a viram partir: o que figurava a expedição do bode — seu expiar. Feia, furtiva, lupina, tão magra.
Vocês, de seus decretantes corações, a expulsaram. Agora, não vão sair a procurar-lhe o corpo morto, para, contritos, enterrá-lo, em festa e pranto, em preito? Não será custoso achá-lo, por aí, caído, nem légua adiante. Ela ia para qualquer longe, ia longamente, ardente, a só e só, tinha finas pernas de andar, andar. É caso, o que agora direi. E, nunca se esqueçam, tomem na lembrança, narrem aos seus filhos, havidos ou vindouros, o que vocês viram com esses seus olhos terrivorosos, e não souberam impedir, nem compreender, nem agraciar. De como, quando ia a partir, ela avistou aquele um cachorro morto, abandonado e meio já podre, na ponta-da-rua, e pegou-o às costas, o foi levando: — se para livrar o logradouro e lugar de sua pestilência perigosa, se para piedade de dar-lhe cova em terra, se para com ele ter com quem ou quê se abraçar, na hora de sua grande morte solitária? Pensem, meditem nela, entanto.

– João Guimarães Rosa, no livro “Primeiras estórias”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

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