George Bataille

Retomamos hoje a nossa última coluna “Precisamos repensar a comunidade: Esposito e a communitas” seguindo a reflexão proposta por Esposito em Communitas, obra na qual em seu último capítulo, o autor debruça-se sobre a experiência, destacada a contribuição dentro da discussão do pensamento de Georges Bataille. Em “A experiência interior”, livro do filósofo francês inúmeras vezes citado no capítulo em questão, BATAILLE (1973, p.13) estabelece que:

Entiendo por experiencia interior lo que habitualmente se llama experiencia mística: los estados de éxtasis, de arrobamiento,cuando menos de emoción meditada. Pero pienso menos en la experiencia confesional, a la que ha habido que atenerse hasta ahora, que en una experiencia desnuda, libre de ligaduras, incluso de origen, con cualquier confesión. Por esta razón no me gusta la palabra místico.

No me gustan tampoco las definiciones estrechas. La experiencia interior responde a la necesidad en la que me encuentro -y conmigo, la existencia humana- de ponerlo todo en tela de juicio (en cuestión) sin reposo admisible. Esta necesidad funcionaba pese a las creencias religiosas; pero tiene consecuencias tanto más completas cuando no se tienen tales creencias. Las presuposiciones dogmáticas han dado limites indebidos a la experiencia: el que sabe ya, no puede ir más allá de un horizonte conocido.

A experiência interior não pode ter outra preocupação, nem outro fim, que não seja ela mesma, isto é, ela é a única autoridade e o único valor, o que implica no rigor de um método, a existência de uma comunidade. Bataille entende ainda que a experiência é uma viagem ao limite do possível ao homem, restando ao mesmo a escolha por fazê-la ou não. Aos que optam por submeter-se à ela, o autor supõe que negam as autoridades e os valores existentes que limitam o possível e, através dessa negação, a experiência passa a ser, ela mesma, o valor e a autoridade para estes sujeitos. Ao analisar os princípios do método e da comunidade, ele é claro ao afirmar que inventamos vias para fugir do isolamento e não nos defrontamos, assim, com os estados de êxtase ou de arrebatamento. Nesse sentido, oportuno lembrar que Bataille refletia se as experiências do comum poderiam ser perseguidas em diferentes tipos de êxtase (religioso e erótico/amoroso) e buscava algo que nos tirasse de nós mesmos e nos lançasse nesse outro tipo de subjetivação não individual, sendo, para tal, necessário abandonar o indivíduo egoico e o papel central da racionalidade para alcançar essa outra espécie de subjetividade.
Esposito compreende que a experiência é o que destitui o sujeito de toda a sua subjetividade, isto é, que o força a sair de si mesmo.

Esse experimento de “desobjetivación” é que pode voltar a questionar o sujeito, remetendo ao pensamento de Foucault que tinha na experimentação de algo a destruição real, na transformação em outra coisa muito distinta. Para o filósofo italiano, o ponto que Bataille segue fixando é o epicentro do não saber que escapa por coincidir com a sua exteriorização, isto é, a comunidade.

Esse autor através de suas reflexões de cunho comunitário chega à ausência, ao impossível da comunidade ao ponto de pensar então que o único tipo paradoxal de comunidade possível seria a comunidade da ausência, a comunidade dos sem comunidades – o que Blanchot chama de comunidade negativa. Ela consistiria justamente nesse ato de compartilhar a impossibilidade da própria comunidade. Como pontua Roberto Esposito ao discorrer sobre o pensamento batailleano o desejo da comunidade, advindo da nostalgia de não ser individual, vai contra o instinto de conservação da estrutura do sujeito individual e sua identidade. Tal desejo se configura necessariamente como negação da vida como se verifica para ESPOSITO (2003, P.196)

yo me comunico solo fuera de mi, dejándo llevar o arrojándome fuera. Pero fuera de mi no existo más. Tengo esta certeza: abandonando el ser em mí, buscándo-lo por fuera, corro el riesgo de me arruinar o destruir –aquello que es condición de la aparición misma de mi existencia externa

Maurice Blanchot, filósofo francês, dialoga com Bataille em sua obra, destacadamente em “A comunidade inconfessável” cuja primeira parte é dedicada a analisar a obra de Georges Bataille. Dessa análise Blanchot compreende que o ser busca ser contestado para existir: quando o outro o contesta ou nega a fim de que ele comece a ser essa privação que o torna consciente da impossibilidade de ser ele mesmo como indivíduo separado. Ao insistir em existir dessa forma ele se compõe ao decompor constante, sendo parte estilhaçada da existência de parte. É necessário, assim, que cada existência individual saia de si e chame uma pluralidade de outros, trazendo-nos uma espécie de deflagração em cadeia que demanda um número de sujeitos para configurar-se. Em outras palavras: o outro também precisa abandonar-se. Eis aqui o apelo a uma comunidade que, à exemplo daqueles que a investem, deve ser finita.

Nesse diapasão, temos que a comunidade é a verdade da existência humana, como afirma Roberto Esposito. Fora dela a existência humana é apenas embrionária, só somos homens inseridos no contexto comunitário. Das análises do pensamento de Bataille feita tanto por Blanchot quanto por Esposito nota-se a centralidade da morte no pensamento batailleano acerca da comunidade. Para ele a morte representa a anulação de toda a possibilidade na dimensão expropriadora e expropriada do impossível, a morte é a nossa comum impossibilidade de ser aquilo que nos esforçamos para ser, indivíduos isolados. O que me põe para fora de mim, em comum, é a morte do outro que nos permite refletir e, principalmente, despertar a solidão que não é possível atenuar, somente compartilhar. Compartilhar a solidão desse evento o despossui radicalmente:

“Sim, é verdadeiro (por qual verdade?), tu morres. Só que, morrendo, tu não te distancias somente, tu estás ainda presente, pois eis que tu me concedes esse morrer como o acordo que passa além de toda pena, e onde eu me arrepio docemente naquilo que dilacera, perdendo a palavra contigo, morrendo contigo sem ti, me deixando morrer em teu lugar, recebendo esse dom para além de ti e de mim. Ao quê há essa resposta: ‘Na ilusão que te faz viver enquanto eu morro’. Ao quê há esta resposta: ‘Na ilusão que te faz morrer enquanto tu morres’”. (BLANCHOT, 2013, p.21)

Se a morte do outro revela a comunidade é porque a morte consiste na verdadeira comunidade dos seres mortais, a sua comunhão impossível. Desse modo, vê-se que a comunidade ocupa esse lugar singular ao assumir a impossibilidade de sua própria imanência, de um ser comunitário como sujeito assumindo, assim, a inviabilidade da comunidade. A comunidade apresenta a seus membros sua verdade mortal, eis que espelho dos seres mortais, finitos, que a compõe – ela é a apresentação da finitude e do excesso sem retorno que funda esse ser finito.

No capítulo que dedica ao tema da súplica, Bataille afirma não ser nada, absolutamente nada e apresenta a noção de ponto extremo do possível. Trata-se do ponto que, apesar da posição, ininteligível para ele, que tem no ser, este um homem desprendido de espelhismos e horrores, avança tão distante que não se pode conceber uma possibilidade de ir mais longe, sendo assim, inútil dizer até que ponto ele pode ir. Esse ponto pressupõe riso, êxtase, proximidade aterrorizada da morte e também da súplica nos momentos de desespero. Para ir até o limite do homem é preciso chegar ao ponto de não suportar, forçar a sorte. Nesse árduo caminho, não há descanso: quem se experimenta não pode cessar um instante de se provocar tampouco supor ter alcançado o ponto extremo, não há segurança disso, afirma, é necessário, portanto, estar sempre em busca do extremo do possível.

A noção de busca pelo extremo do possível remete-nos ao grupo liderado por Bataille denominado, à exemplo de revista acadêmica coordenada por este, Acéfalo, em meados dos anos de 1930. É sobre a sociedade, secreta, que iremos nos debruçar. Neste grupo os participantes comprometem-se através de voto de silêncio que é, inclusive, o que pauta sua participação. Eles permaneciam em silêncio e meditação, próximos a uma árvore que havia sido fulminada por um raio, para além da meditação e do exercício do silêncio, havia ainda a encenação de um sacrifício, parte do ritual. A ideia do acéfalo é de que o único sentido que se podia dar a existência era entregar-se em sacrifício à morte. O sentido dessa ideia seria compartilhar nessa comunidade acéfala o que se é possível compartilhar, isto é, o abandono de si mesmo: a morte, de um lado e, por outro lado, quem sabe então concretizando-se esse sacrifício,através da morte de um que valia pela de todos, pudesse ser instaurada uma fundação forte e mítica do grupo a partir dessa morte. Por se tratar de uma morte sacrificial, vale dizer, ela não se confundia com suicídio. Neste sacrifício, alguém deveria ofertar um outro membro do grupo era, portanto, necessário alguém para matar e para morrer. Curiosamente, a maioria dos membros do grupo estavam dispostos a morrer, mas nenhum queria matar e, assim, o sacrifício não se realizava.

Há uma renúncia do grupo na produção de qualquer tipo de obra, eis que toda qualquer obra produzida pelo sujeito possessivo racional era tida como vã. Dado o caráter secreto há, ainda, imprecisão acerca dos integrantes do grupo. Há quem diga, mas não há como se provar, que em 1939 além Bataille haviam outros três integrantes.

Para Blanchot há a conversão na exaltação da passividade mais radical possível no pensamento de Bataille. Sacrificar é abandonar e dar a si mesmo sem retorno, um abandono verdadeiramente sem limite. O abandono é tal que no limite já não haveria mais o que se doar ou abandonar, o que se pretende doar, nessa proposta acéfala, é justamente esse nada, essa ausência. Se a comunidade é constituída pela potência que cada um dos seus membros oferecem à ela, temos então uma comunidade que vive esse abandono comum e constitui-se, dessa forma, em uma comunidade negativa. Mas o indivíduo egoico seria capaz de abandonar-se? Para que uma comunidade pudesse tornar-se possível era necessária a superação do sujeito egoico em direção a outro tipo de subjetividade que, talvez, nem fosse presidida pela consciência.

O sentido o grupo acéfalo é um reflexo dessa sociedade de não relação, marcada pelo individualismo possessivo, mas, doando a si próprio, essa ausência de comunidade se fundaria de forma tênue essa curiosa comunidade negativa. Retomando à Communitas de Esposito, vê-se que é em Bataille que o autor encontra a neutralização da communitas.

*Anna Carolina Cunha Pinto, colunista da Revista Prosa, Verso e Arte, escreve sobre suas percepções do mundo associando-as com conteúdos de Filosofia e Sociologia. Formada em Direito pela Universidade Cândido Mendes, mestranda em Sociologia e Direito pela UFF e apaixonada por filosofia.

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Anna Carolina Cunha Pinto (colunista)

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