©Pierre-Auguste Renoir

O homem malvestido na quarta fila da platéia inclinou-se para a frente e olhou, incrédulo, para o palco. Seus olhos astutos estreitaram-se furtivamente.
— Nancy Taylor! — murmurou ele. — Pelo amor de Deus, a pequena Nancy Taylor!
Num relance, espiou o programa em sua mão. Um nome estava impresso em corpo ligeiramente maior que os demais.
— Olga Stormer! Então é assim que ela se chama. Você se imagina uma estrela, não é, minha senhora? E deve estar enchendo um belo pote de dinheiro, também. Quase me esqueci de que seu nome era Nancy Taylor, permita-me dizê-lo. Ponho-me a pensar, agora… Ponho-me a pensar, agora, o que você diria se Jake Levitt viesse lembrá-la do fato.
A cortina caiu no encerramento do primeiro ato. Calorosos aplausos encheram o auditório. Olga Stormer, a grande atriz dramática, cujo nome em poucos anos tornara-se uma palavra familiar, estava obtendo outro triunfo como “Cora”, em O anjo vingador.
Jake Levitt não se juntou aos que a aplaudiam, porém um vagaroso e apreciativo sorriso distendeu-lhe gradualmente a boca. Meu Deus! Que sorte! Exatamente quando ele estava quase sem dinheiro, também. Ela tentaria blefar, supôs, mas não conseguiria nada com ele. Trabalhada da maneira certa, a coisa toda era uma mina de ouro!
Na manhã seguinte, as primeiras atividades da mina de ouro de Jake Levitt tornaram-se evidentes. Em sua sala de visitas, com laca vermelha e reposteiros negros, Olga Stormer lia e relia, pensativamente, uma carta.
Seu rosto pálido, de traços extremamente expressivos, estava um pouco mais determinado do que de hábito e, de vez em quando, os olhos verde-acinzentados sob as sobrancelhas perfeitas miravam à meia distância, como se ela contemplasse a ameaça que ali se escondia em vez das concretas palavras escritas na carta.

Com a maravilhosa voz que poderia vibrar de emoção ou ser cortante como o clique de uma máquina de escrever, Olga chamou:
— Srta. Jones!
Uma jovem elegante, usando óculos, lápis e bloco de taquigrafia nas mãos, aproximou-se apressada, vinda de uma sala adjacente.
— Telefone para o sr. Danahan e peça-lhe que venha imediatamente.
Syd Danahan, empresário de Olga Stormer, entrou na sala com a costumeira apreensão do homem cuja vida é lidar e superar os caprichos das atrizes. Lisonjear, acalmar, intimidar, um de cada vez ou todos juntos, esta era a sua rotina diária. Para seu alívio, Olga pareceu-lhe calma e equilibrada e simplesmente estendeu-lhe uma carta que estava sobre a mesa.
— Leia isso.
A carta estava garatujada por mão analfabeta, em papel barato.

“Prezada senhora,
Apreciei muito seu desempenho em O anjo vingador na noite passada. Suponho que tenhamos uma amiga comum na srta.
Nancy Taylor, de Chicago. Um artigo a respeito dela será publicado em breve. Se a senhora quiser discuti-lo, poderei visitá-
la no momento em que lhe for mais conveniente.
Respeitosamente seu,
Jake Levitt”

Danahan mostrou-se ligeiramente desnorteado.
— Não entendi nada. Quem é esta Nancy Taylor?
— Uma jovem que estaria melhor morta, Danny. — Havia amargura em sua voz e uma fadiga que revelava os seus 34 anos. — Uma jovem que estava morta até que este corvo que se alimenta de carne putrefata trouxe-a novamente à vida.
— Oh! Então..
— Sou eu, Danny. Simplesmente eu.
— Isto significa chantagem, naturalmente?
Ela concordou com a cabeça.
— Claro, e por um homem que conhece perfeitamente essa arte.
Danahan franziu as sobrancelhas, pensando sobre o assunto. Olga, o rosto apoiado nas longas e esbeltas mãos, olhava-o com olhos impenetráveis.
— O que acha de um blefe? Negue tudo. Ele não pode ter certeza de não ter sido levado a equivocar-se devido a alguma semelhança ocasional.
Olga negou com um movimento de cabeça.
— Levitt ganha a vida chantageando mulheres. Ele tem bastante certeza.
— E quanto ã polícia? — arriscou Danahan, duvidoso.
O sorriso indistinto e zombeteiro foi resposta suficiente. Sob o autocontrole dela, embora ele não imaginasse, havia a impaciência de um cérebro perspicaz observando um cérebro mais lento, percorrendo laboriosamente o terreno que ela havia cruzado em um átimo.
— Você não acha.. hã… que seria inteligente da sua parte… hã…
dizer alguma coisa a Sir Richard? Até certo ponto, isso poderia atrapalhar os planos desse chantagista.
O noivado da atriz com Sir Richard Everard, membro do Parlamento, fora anunciado poucas semanas antes.
— Contei tudo a Richard quando ele me pediu em casamento.
— Meu Deus, foi muito perspicaz de sua parte — declarou Danahan, admirado.
Olga esboçou um sorriso.
— Não foi perspicácia, meu caro Danny. Você não compreenderia.
Não obstante, se esse Levitt fizer o que ameaça, minha carreira acaba e, incidentalmente, a carreira parlamentar de Richard também se arruinaria.
Não, até onde posso ver a situação, há apenas duas coisas a fazer.
— Sim?
— Pagar.. e isso certamente não teria fim! Ou desaparecer e recomeçar.
A amargura estava novamente muito evidente em sua voz.
— E nem sequer fiz algo de que pudesse lamentar-me. Eu era uma criança meio morta de fome, abandonada nas sarjetas, Danny, lutando para manter-me honesta. Atirei em um homem, um homem brutal, que merecia levar um tiro. As circunstâncias sob as quais eu o matei eram tais que nenhum júri do mundo teria me condenado. Sei disso agora, mas naquela época eu era apenas uma criança assustada… e.. fugi.
Danahan meneou a cabeça em sinal de compreensão.
— Suponho — disse ele, meio em dúvida — que não exista nada de que se possa acusar esse sujeito, Levitt, certo?
Olga negou com a cabeça.
— É muito improvável. Ele é covarde demais para fazer alguma coisa errada. — O som de sua própria voz parecia provocar-lhe dor. —
Um covarde! Eu me pergunto se não poderíamos trabalhar nisso, de alguma maneira.
— Se Sir Richard fosse vê-lo e o assustasse .. — sugeriu Danahan.
— Richard é requintado demais para isso. Não se pode tratar com esse tipo de homem usando luvas.
— Bem, deixe-me vê-lo.
— Perdoe-me, Danny, mas não creio que você seja astuto o suficiente. Algo entre luvas e mãos nuas é necessário. Mitenes, digamos!
Isso significa uma mulher! Sim, eu acredito mais que uma mulher possa realizar a proeza. Uma mulher com uma certa dose de finesse, mas que conheça o lado abjeto da vida a partir de uma amarga experiência. Olga Stormer, por exemplo! Não fale comigo, tenho um plano em andamento.
Ela inclinou-se para a frente, escondendo o rosto nas mãos, que ergueu de repente.
— Qual é o nome daquela moça que quer se preparar para ser minha eventual substituta? Margaret Ryan, não é? A moça com o cabelo igual ao meu?
— O cabelo dela tudo bem — admitiu Danahan, de má vontade, pousando os olhos nos cachos bronze-dourados que rodeavam a cabeça de Olga. — É exatamente como o seu, conforme você diz. Mas ela não presta para mais nada sob qualquer outro aspecto. Eu ia despedi-la na próxima semana.
— Se tudo correr bem, provavelmente você terá de permitir que ela seja minha substituta no papel de “Cora”. — Ela impediu que ele protestasse com um aceno de mão. — Danny, responda-me honestamente: você acha que eu sei representar? Quero dizer, realmente representar. Ou sou apenas uma mulher atraente, que vagueia por aí em lindos vestidos?
— Representar? Meu Deus! Olga, não existe ninguém como você desde Duse!
— Então, se realmente Levitt é um covarde, como eu suspeito, a coisa irá funcionar. Não, não vou lhe falar nada a respeito. Quero que você consiga falar com a jovem Ryan. Diga-lhe que estou interessada nela e que desejo jantar aqui com ela amanhã à noite. Ela virá correndo.
— Eu diria que sim!
— A outra coisa que quero é um bom e forte sortimento de pílulas, algo que ponha alguém fora de combate durante uma ou duas horas, mas que não deixe nenhuma seqüela no dia seguinte.
Danahan sorriu.
— Não posso garantir que o nosso amigo não terá sequer dor de cabeça, mas ele não sofrerá nenhum dano permanente.
— Ótimo! Apresse-se, então, Danny, e deixe o resto comigo. — Ela ergueu a voz: — Srta. Jones!
A jovem de óculos surgiu com a sua habitual alacridade.
— Anote isto, por favor.
Caminhando vagarosamente de um lado para o outro, Olga ditou a correspondência diária. Mas uma resposta ela escreveu de próprio punho.
Jake Levitt, em seu quarto sombrio, sorria enquanto rasgava o esperado envelope.

“Prezado senhor,
Não consegui lembrar-me da senhora de quem o senhor falou, mas conheço tanta gente que minha memória tornou-se necessariamente algo imprecisa. Estou sempre disposta a ajudar qualquer colega atriz e, portanto, estarei em casa, se o senhor vier, esta noite às nove.
Sinceramente,
Olga Stormer”

Levitt meneou a cabeça com profunda satisfação. Resposta esperta!
Ela nada admitia. Não obstante, queria conversar. A mina de ouro começava a funcionar.
Precisamente às nove horas Levitt estava de pé do lado de fora da porta do apartamento da atriz e apertou a campainha. Ninguém respondeu ao chamado e ele estava prestes a apertá-la novamente, quando percebeu que a porta estava apenas encostada. Empurrou-a e entrou no saguão. À
sua direita havia uma porta aberta, que levava a uma sala brilhantemente iluminada, um aposento decorado em vermelho e preto. Levitt entrou.
Sobre a mesa, debaixo da luminária, havia uma folha de papel na qual estavam escritas as palavras:

“Por favor, espere até que eu retorne. Olga Stormer.”

Levitt sentou-se e pôs-se a esperar. Apesar de lutar contra, uma sensação de desconforto estava se apoderando dele. O apartamento estava profundamente quieto. Havia alguma coisa sinistra naquele silêncio.
Nada errado, claro, como poderia haver? Mas a sala estava mortalmente calma; ainda assim, calma como estava, ele tinha a absurda e desconfortável sensação de que não se encontrava sozinho. Bobagem!
Enxugou o suor na testa. A impressão, porém, tornou-se mais forte. Ele não estava sozinho! Murmurando uma imprecação, levantou-se e começou a caminhar de um lado para o outro. Em um minuto a mulher retornaria e então..
Ele parou de repente, soltando um grito abafado. Por debaixo do reposteiro de veludo negro que recobria a janela, a mão surgia! Ele parou e tocou-a. Fria — horrivelmente fria — a mão estava morta.
Com um grito, puxou as cortinas. A mulher ali jazia, um braço estendido, o outro dobrado sob ela, assim como o rosto, voltado para baixo, seu cabelo bronze-dourado espalhando-se em mechas desgrenhadas sobre o pescoço.
Olga Stormer! Tremendo, seus dedos sentiram a gélida frialdade daquele pulso e procuraram por algum sinal de pulsação. Como imaginava, não havia nenhum. Ela estava morta. Havia escapado dele, portanto, tomando o caminho mais simples.
De súbito, seus olhos foram atraídos pelas duas pontas de uma corda vermelha que finalizavam em fantásticas borlas semi-escondidas em seus cabelos. Tocou-as cautelosamente; a cabeça tombou para o lado, e ele teve uma rápida visão de um horrível rosto púrpura. Jake saltou para trás com um grito, sua cabeça girando. Havia alguma coisa ali que ele não compreendia. A breve espiadela naquele rosto, desfigurado como estava, mostrara-lhe uma coisa. Aquilo era assassinato, não suicídio. A mulher fora estrangulada e. . não era Olga Stormer!
Ah! O que era aquilo? Um som às suas costas. Virou-se e viu-se olhando direto para os olhos aterrorizados de uma criada, que se agachava de encontro a parede. Seu rosto estava tão branco quanto a touca e o avental que vestia, mas ele não entendeu o hipnótico horror em seus olhos até que suas palavras entrecortadas esclareceram-no sobre o perigo que corria.
— Oh, meu Deus! Você a matou!
Mesmo então, ele não compreendeu completamente. E replicou:
— Não, não, ela já estava morta quando a encontrei.
— Eu vi você matá-la! Você puxou a corda e a estrangulou. Ouvi o grito gorgolejante que ela deu.
O suor brotou rapidamente em sua testa. Sua mente revisou, às pressas, todas as suas ações nos poucos minutos anteriores. Ela devia ter entrado no mesmo momento em que ele tinha nas mãos as duas pontas da corda; ela vira a cabeça tombar e tomara o seu próprio grito como sendo da vítima. Ele a olhava desamparado. Não havia dúvida quanto ao que ele via em seu rosto: terror e estupidez, Ela diria à polícia que vira o crime ser cometido, e nenhum interrogatório mudaria o seu depoimento, ele tinha certeza disso. Ela destruiria a sua vida, com a inabalável convicção de que estava dizendo a verdade.
Que horrível e inopinada cadeia de circunstâncias! Pare, aquilo era inopinado? Havia algo de diabólico ali? Num impulso, ele disse, encarando-a fixamente:
— Essa não é a sua patroa, sabia?
A resposta, dada mecanicamente, jogou alguma luz sobre a situação.
— Não, é uma atriz amiga dela… se é que se pode chamá-las de amigas, visto que brigavam como cão e gato. Estavam aqui esta noite, às turras.
Uma armadilha! Agora ele entendia.
— Onde está a sua patroa?
— Saiu há dez minutos.
Uma armadilha! E ele nela caíra como um cordeirinho. Uma diaba esperta, essa Olga Stormer; livrara-se da rival, e ele ia sofrer pelo ato.
Assassinato! Meu Deus, eles enforcavam um homem por assassinato! E
ele era inocente. . inocente!
Um farfalhar furtivo chamou-o de volta. A empregadinha estava se encaminhando de lado para a porta. Suas faculdades mentais recomeçavam a trabalhar. Seus olhos fixaram-se hesitantes no telefone, depois novamente na porta. Ele precisava silenciá-la a qualquer custo. Era a única maneira. Tanto fazia ser enforcado por um crime real como por um fictício. Ela não tinha armas, nem ele. Mas ele tinha as suas mãos! Foi então que seu coração deu um salto. Na mesa, ao lado dela, quase ao alcance de sua mão, havia um pequeno revólver, enfeitado com pedras preciosas. Se pudesse alcançá-lo antes dela…
Os olhos dele ou o instinto avisaram-na. Ela pegou o revólver quando ele se moveu e apontou-o para o peito dele. Desajeitadamente, enquanto o segurava, mantinha o dedo no gatilho. Não teria dificuldade em atingi-lo daquela distância. Ele parou imóvel. Um revólver que pertencesse a uma mulher como Olga Stormer certamente estaria carregado.
Mas havia uma coisa: ela não estava mais diretamente entre ele e a porta. Desde que ele não a atacasse, possivelmente ela não teria coragem de disparar. De qualquer forma, tinha de arriscar. Ziguezagueando, correu para a porta, atravessou o saguão e saiu pela porta da frente, batendo-a às suas costas. Ouvia a voz dela, fraca e trêmula, chamando:
“Polícia, assassinato!” Ela teria de gritar bem mais alto até que alguém pudesse ouvi-la. Ele já dera início à solução, pelo menos. Descendo as escadas, saiu correndo pelas ruas vazias, depois diminuiu as passadas e, caminhando como um pedestre sem rumo, dobrou a esquina. Ele tinha um plano todo montado. Ir para Gravesend o mais rapidamente possível.
Um navio zarparia dali naquela noite, para as partes mais remotas do globo. Ele conhecia o capitão, um homem que, por consideração, não lhe faria perguntas. Uma vez a bordo e em alto-mar, ele estaria seguro.
Às onze horas, o telefone de Danahan tocou. Ouviu-se a voz de Olga.
— Prepare um contrato para a srta. Ryan, ouviu? Ela será minha substituta no papel de “Cora”. Está absolutamente fora de questão qualquer discussão. Devo-lhe algo depois de todas as coisas que ela fez por mim esta noite. Quê? Sim, creio que me livrei de todos os meus problemas. E, aproveitando a ocasião, se ela lhe disser amanhã que eu sou uma fervorosa espírita e que a coloquei em transe esta noite, não demonstre nenhuma incredulidade. Como? Soníferos no café, seguidos de passes científicos! Depois disso, maquiei seu rosto com cosmético púrpura e apliquei um torniquete em seu braço esquerdo! Aturdido?
Bem, você terá de ficar aturdido até amanhã. Não tenho tempo para lhe dar explicações agora. Preciso livrar-me da touca e do avental antes que a minha fiel Maud retorne do cinema. Havia um “drama maravilhoso” esta noite, disse-me ela. Mas ela perdeu o melhor drama de todos. Representei o meu melhor papel esta noite, Danny. As mitenes venceram! Jake Levitt é um completo covarde e.. oh, Danny, Danny.. eu sou uma atriz!
— Agatha Christie, no livro “Enquanto houver luz: e outras estórias”. tradução Jaime Rodrigues. Rio de Janeiro: Record, 2000.

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