Sganzerla dirige “O signo do Caos”. Fonte: Itaú Cultural.

Se há um filme realizado noutros tempos que é imbatível no quesito “atualidade”, este é “O signo do caos” (2003), derradeira obra do genial Rogério Sganzerla. Não que o filme quando de sua realização uma década e meia atrás não estivesse de acordo com seu tempo; antes, é um monumento artístico que traduz a alma da cultural brasileira desde (provavelmente) sempre; que vai à carne e aos ossos ao investigar, de forma crua e cruel, como a Arte, as letras, a cultura tendem a ser os primeiríssimos sacrificados em tempos em que a cegueira huna das hordas medievas ressurgem da pocilga em que habitam.

Não que em outros momentos as trevas estivessem ausentes. Mas parafraseando Nelson Jobim, aquele que foi ministro do FHC e do Lula, os beócios e fascistas definitivamente perderam a modéstia e já não se temem se exibir e agir, com a tradicional dose de manipulação por bucaneiros oportunistas – vide os recentes casos em a demagogia dos santos de pau oco e da récua trevosa acovardada dos quintais da internet começa a urrar por sangue e linchamento ao menor sinal daquilo que sequer têm ganas de compreender.
“O signo do caos” foi o último longa de Sganzerla, diretor famoso por “O bandido da luz vermelha” e cultuado por uma obra das mais originais, sólidas, agressivas e perturbadoras do cinema brasileiro. Retoma aqui sua fixação por Orson Welles – explícita em ao menos três trabalhos anteriores – como mote para tratar de diversas questões, políticas, estéticas, num tom debochadamente desiludido, repleto de momentos e frases antológicas. Jogam-se latas de filmes ao mar, pois filmes parecem não ter mais sentido, ou nunca tiveram. A censura a Welles, quando de sua passagem pelo Brasil no começo dos anos 40, é relembrada: o maior dos cineastas, o gênio criativo de “O cidadão Kane”, foi se interessar por um Brasil que não era nada do que o imaginário oficial ansiava.

Welles se interessa pelo morro, o povo, a cultura de origem afro, gente morena, carnaval. Ao governo, que recebeu Welles, faltou “combinar com os russos”. Pisa aqui o gringo, seus olhos se fascinam com um Brasil que as classes dominantes repudiam. “Gente preta sambando”. Uma cultura que estava fora dos projetos oficiais. Essa gente “de cima” que historicamente insiste em definir e normatizar o que é arte e o que não é, o que pode e o que não pode, com sua mesquinhez moral e a truculência habitual dos iletrados com grana no bolso.

Rogério Sganzerla (1946-2004). Fonte: EBC.

Sganzerla já anuncia “O signo do caos” como um “antifilme”, e algum personagem dirá sobre uma lata em mãos: “esse filme não serve para se ver”. Afinal, o que foi feito para se ver e o que não foi? Somente em uma charneca de taverneiros poderíamos confiar esse juízo à indigência de nossa pequena moral e miúdos preconceitos. “O signo” é um manifesto, libelo contra a obscuridade, feito após o diagnóstico de um país vocacionado a ser colônia eterna. Mais de uma década antes da internet garantir a organização dos capitães de mato virtuais, milicianos da classe média tradicional que supõem ser o chicote em mãos um bilhete de aceitação para uma classe endinheirada que nunca pariu projeto de coisa alguma neste desencantado sertão tupiniquim.

“Um país de sobremesa”. “Açúcar, café, cacau, banana”, repetem os donos do poder. O andar de cinema em “O signo” quer vender cacau e se encharcar de champanhe. Daí ótima ironia, pois o “hermético” Sganzerla é certamente um elitista, naquilo que o termo abriga de superior: grande artista e membro do que o Brasil melhor produziu no século XX. Seu cinema, nesse sentido, é o exato oposto de 90% das comédias “padrão Globo filmes”, em que valores da classe endinheirada ou aspirante são fetichizados, num mecanismo de perpetuação de nosso atraso, o elogio do consumo, aliado ao desprezo ao pensar, outra moda desse Brasil tomado por gente bruta, irrespirável.

Welles no Brasil era o norte com o sul, o rico com o pobre, branco com preto, o gringo do país mais rico em Pindorama esquecida. Não era o Zé Carioca da Disney, era interação, fascínio, descoberta, alteridade. O gesto de repelir Welles seria uma máxima da mediocridade; a aceitação da viralatice. E “O signo do caos” é justamente o manifesto anti-viralatas do cinema brasileiro. Antifilme, não-filme, filme de cabeça erguida, assim o como recente “Guerra do Paraguay”, filmaço maravilhoso de Luiz Rosemberg que já nasceu esquecido no Atacama cultural brasileiro.

“O signo do caos” é um filme obsceno, e desesperador. Pornográfico. Pois poucas coisas tão violentas como sentir a overdose de mediocridade cultural e política mastigada, deglutida e devolvida com sublime acento perturbador por um grande artista. “Aqui não é permitido pensar”, surge a frase. Em mais de um momento há referências en passant a um “ornitorrinco” – seria o próprio Brasil, esquisito, uma maluquice selvagem, incompreensível, além de venenosa? Noutra passagem, o veredito: temos é que prender Welles. Na verdade, temos é que prender Sganzerla e todos os artistas, todos os que chocam, todos os que contrariam. “O signo” é um réquiem, não apenas do cineasta, mas como se anunciasse o apocalipse da decadência de uma cultura que sequer atingiu a civilização.
Não à toa, ao final, temos ruínas, o teto que desaba, fogo, a película jogada na fogueira. Poderiam ser livros. Sganzerla, em seu canto do cisne, desnudou um país em desacerto político permanente, irremediavelmente condenado à ignorância, à vitória do senso comum. Compreendeu como ninguém que quando as trevas tomam conta, a primeira vítima é a Arte. Recorda ao seu modo a previsão atemporal de Heine, queimamos livros, logo queimaremos homens.

Assista aqui ao antifilme O signo do caos”. Boa sorte!

André de Paula Eduardo é jornalista, formado na Unesp, onde fez mestrado em Comunicação. Pesquisa cinema brasileiro, torce pro Santos e é apaixonado por Brahms e Pink Floyd. Colunista e colaborador da Revista Prosa Verso e Arte.

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