Criança - inteligências múltiplas

Descubra para que servem e como aproveitar as habilidades que predominam e melhorar as deficitárias
– por Olga Carmona*

Nos últimos anos se popularizou muito o conceito de inteligências múltiplas, essa ideia de que a inteligência é uma construção complexa que não pode ser definida de uma única maneira. O que não é tão conhecido e para que serve, o que fazer com isso e de que forma pode favorecer nossos filhos.

Efetivamente, foi um psicólogo de Harvard que publicou um revolucionário livro chamado Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas, no qual propôs inicialmente a existência de sete inteligências, às quais posteriormente se acrescentariam outras duas. Esse psicólogo, chamado Howard Gardner, definiu a inteligência como a “capacidade de resolver problemas, ou criar produtos, que sejam valiosos em um ou mais ambientes culturais”. Nos contextos escolares, o foco se concentrou na forma lógico-matemática e na linguística, mas esta corrente considera que a inteligência pode se expressar de maneiras muito diferentes, sem restringi-la àquelas duas. A abordagem consiste em agrupar as diferentes capacidades humanas em nove tipos:

Inteligência espacial: capacidade para processar a informação em três dimensões, para relacionar cores, linhas, formas, espaço e figura. As pessoas com esta inteligência mais desenvolvida fixam as imagens independentemente do lugar ou posição em que estas se encontrem, antecipam-se às possíveis mudanças de um objeto e podem visualizá-lo. Nas crianças, pode-se observar isso quando têm uma inclinação especial por jogos que consistem em montar ou desmontar, quebra-cabeças e tudo que esteja expressado em imagens. Esta inteligência é desenvolvida por meio de atividades como decorar paredes, criar um mural, montar quebra-cabeças, encontrar a saída de labirintos, editar vídeos e criar pequenos filmes.

Inteligência lógico-matemática: é a habilidade para resolver problemas de forma lógica e com um alto raciocínio numérico. Também é a capacidade para categorizar, deduzir, classificar conforme um padrão lógico e estabelecer relações causais. As crianças nas quais predomina este tipo de inteligência são observadoras, gostam de adivinhações, de sudokus e de saber como funcionam as coisas. Para favorecer este tipo, algumas ideias são brincar com séries lógicas, fazer experimentos com massinha e reciclagem, usar mapas mentais e jogos que envolvam decifrar códigos, classificar, ordenar seguindo sequências.

Inteligência corporal-cinestésica: predomínio da capacidade para controlar corpo e mente de maneira muito competente. Pode ser grossa, como no caso dos atletas e bailarinos, mas também fina, como no caso dos artesãos. Inclui equilíbrio, destreza, força, flexibilidade. As crianças em que predomina esta inteligência sofrem muito em sistemas tradicionais de ensino nos quais são obrigadas a ficar quietas durante longos períodos de tempo, sendo que a forma que têm de absorver estímulos e aprender é através do corpo e do movimento. Este é seu veículo de expressão e aprendizagem. Podem ser etiquetadas como hiperativas sem ser assim. Tais crianças apreciarão muito todas as brincadeiras que envolvam o movimento e a experimentação: caças ao tesouro, construção de maquetes, peças de montar, artesanato, representação do abstrato ou do teórico por meio do corpo.

Inteligência linguística: habilidade para usar as palavras, tanto as faladas como as escritas, para a aprendizagem de idiomas, a comunicação e a escrita. As crianças com esse tipo de inteligência mais desenvolvido têm uma linguagem rica e fluida, interessam-se pelos significados das palavras e os usam corretamente, apreciam os contos e os jogos de palavras. Gostam de se expressar através deste canal. Algumas atividades para fomentar este tipo de inteligência poderiam ser: preparar um discurso, escrever um pequeno conto, inventar uma história, escrever uma poesia… enfim, tudo que tem relação com a palavra em qualquer de suas expressões.

Inteligência musical: pessoas com elevada capacidade para perceber e discriminar os sons e transformá-los em formas musicais, para compor e tocar diferentes instrumentos, para aprender ritmos e canções. Necessitam da música e preferem se expressar através dela. As atividades que reforçam ou desenvolvem este tipo de inteligência são aquelas cujos ingredientes fundamentais são a música e o ritmo. As crianças com inteligência musical se relaxam e se concentram com música e gostam das brincadeiras que envolvem aprender e compor canções, reproduzir sons da natureza, criar instrumentos musicais próprios, tocá-los…

Inteligência intrapessoal: trata-se de uma grande capacidade para o autoconhecimento, para a gestão emocional de si mesmo, implica uma grande consciência dos próprios estados de ânimo, desejos, necessidades, motivações. As pessoas com esta inteligência muito elevada têm grande autocontrole, autoestima, habilidade para a introspecção, estão conectadas com suas prioridades e muito bem ancoradas no aqui e agora. Este é um dos tipos de inteligência que, juntamente com a interpessoal, influem mais na percepção de bem-estar, felicidade e êxito do que as chamadas inteligências “clássicas”, como a lógico-matemática e a linguística. Este tipo pode ser observado nas crianças que preferem trabalhar sozinhas, concentram-se bem quando a tarefa as motiva, são independentes e capazes de saber e dizer como se sentem e por quê. Geralmente são vistas como tímidas, teimosas e até lentas, quando na verdade são muito criativas. Podemos ajudá-las a desenvolver a inteligência intrapessoal com estratégias como descrever suas qualidades e seus pontos fortes, usar técnicas de concentração e de reflexão acompanhadas, o jogo individual, conhecer e relatar as emoções, saber o que as desencadeou, aceitar os erros… tudo que leve ao autoconhecimento e a uma melhor gestão de seus estados emocionais.

Inteligência interpessoal: é um tipo fundamental, já que é a que nos leva à escolha do parceiro amoroso e dos amigos. Baseia-se na empatia e na habilidade para lidar com as relações. Permite-nos entender e intuir os estados de ânimo, as motivações, as razões da conduta dos outros. As crianças que têm esta inteligência muito desenvolvida querem estar sempre acompanhadas e em grupo, apreciam as brincadeiras coletivas, são hábeis para evitar e gerir os conflitos entre iguais, gostam de se relacionar com as outras pessoas, são empáticas, sensíveis às emoções alheias. O trabalho cooperativo (não competitivo), aprender a dar e receber feedback, comprometer-se com os demais, apreciar a diferença como um valor, respeitar outras formas de vida e de pensamento, em resumo, tudo que desenvolva a capacidade empática, solidária e respeitosa está ligado à inteligência interpessoal.

Inteligência naturalista: é a que nos faz sensíveis à natureza, aos animais, ao meio ambiente. Capacidade de perceber as relações entre as espécies, de observá-las, preferência pelas atividades ao ar livre, enfim, tudo que está relacionado à natureza fascina as pessoas que têm esta inteligência mais desenvolvida. Este tipo pode ser observado nas crianças que gostam de explorar os ambientes mais próximos, visitar lugares onde possam ser vistos animais e outros habitats, semear uma pequena horta, conviver com animais e assumir a responsabilidade de cuidar deles, colecionar pedras, folhas, observar insetos e tudo aquilo que as conecte com um plano natural onde a percepção e a intuição são protagonistas.

Inteligência existencial: trata-se da capacidade de fazer a si mesmo perguntas sobre as grandes questões da existência, sobre o sentido da vida e da morte, o porquê de nossa passagem pela vida. É uma das primeiras a se desenvolver em crianças com altas capacidades que, com uma idade muito tenra, já começam a se perguntar sobre a morte e o sentido da vida, a existência de Deus etc. O desenvolvimento desta inteligência está ligado às crenças do sistema familiar e às atividades que desenvolvam de acordo com elas.

Os nove tipos de inteligência se encontram em maior ou menor medida em todas as pessoas, embora em algumas de forma mais predominante do que em outras. No caso de nossos filhos, a ideia é ser capazes de aproveitar as inteligências que predominam deles e favorecer aquelas nas quais são mais deficitários, a fim de equilibrar todas as aptidões em busca de um desenvolvimento harmônico que potencialize seus pontos fortes, mas sem deixar de lado aquilo em que são menos favorecidas.

* Olga Carmona é licenciada em Psicologia Clínica (Colegiado M-16349), especialista em Psicoterapia Breve e em Psicopatologia da Infância e Adolescência pela Sociedade Espanhola de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica (Fundação Universidade Ciências da Saúde).

Fonte: El País Brasil

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