©Gustav Klimt

Fim da vida e o luto

Eu cuido de pessoas que morrem.

A frase pode intimidar, mas a médica Ana Claudia Quintana fala manso, devagar, não é nada depressiva. Mora em São Paulo, tem namorado no Rio, uma filha de 20 anos que cursa medicina na Alemanha, um filho de 16 anos com quem faz ioga uma vez por semana. Um cachorro e um gato também. “Um gato preto, pra dar conta disso tudo”, diz ela antes de cair na gargalhada. Há 20 anos ela trabalha com pessoas que morrem, e sua visão sobre isso, transmitida em palestras no projeto “The School of Life”, na série TED e no novo livro “A morte é um dia que vale a pena viver” (Ed Casa da Palavra) pode mudar a percepção das pessoas sobre a vida. Nesta entrevista, Ana Claudia fala também sobre a comoção e o luto em torno da morte de Domingos Montagner: “o sentido da vida dele não ficará no fundo do Rio São Francisco”.

O que você acredita que acontece quando a gente morre?
Eu não sei, é um mistério, é uma pergunta que não tem resposta pra mim. E eu estou em paz de não ter resposta.

Você observa nos pacientes uma busca por remendar o fim da vida?
Tem uma busca de arremate na própria existência. Talvez esta seja a maior angústia do final: mais do que encontrar uma resposta para o depois, é encontrar um sentido para o que se viveu.

Você tem religião?
Nenhuma religião completa o tamanho da minha fé. No livro eu falo disso, não preciso acreditar, eu sei que Deus existe. Assim como eu não preciso acreditar que o Sol vai nascer, eu sei que ele nasce. Nasci numa família católica, hoje tenho uma filosofia de vida muito compatível com o budismo, mas duvido que tenha uma fé maior do que o pessoal Testemunha de Jeová: eles são muito serenos nesse momento final de vida, e é lindo isso.

Qual sua opinião sobre eutanásia? E a diferença para ortotanásia?
Respeito a eutanásia, quem pede e quem faz. Não pratico, mas não posso dizer que não pediria, porque é mesquinharia da nossa parte antecipar decisões sobre sofrimentos que a gente não experienciou. Mas a minha impressão é que com a eutanásia se perde a chance de passar por todas as etapas da experiência humana. É como comer um lindo bolo de isopor: tem a beleza da cena, da intenção, a pureza do significado, mas a eutanásia sequestra a experiência de viver a sua morte. Porque a boa morte, que é o significado da palavra eutanásia, na sociedade ocidental é aquela em que se escolhe onde e como, é a morte absolutamente controlada. Já a ortotanásia aceita a morte no momento em que ela se estabelece, não há procedimentos para prolongar o sofrimento. Países em que a eutanásia é permitida não são tão desenvolvidos em cuidados paliativos, porque não há a obrigação de encontrar uma saída para aliviar a dor que não seja a morte.

No Brasil, onde a eutanásia é proibida, os cuidados paliativos são bem desenvolvidos?
Está começando, a residência médica nesta especialidade tem três anos (Ana Claudia fez especialização na Universidade de Oxford, no Reino Unido e criou a Casa do Cuidar, em São Paulo, que oferece essa formação). Hoje as pessoas já escolhem essa residência, mas na minha época era super malvisto, era como fazer a parte suja da medicina.

Você observa pacientes querendo viver e tendo que morrer. O que pensa do suicídio?
Na minha percepção é o extremo do sofrimento, quando não se encontra saída. É como se a pessoa quisesse destruir o mundo, mas como não é possível, a pessoa se destrói. No meu trabalho eu vejo mais o luto do paciente, porque ele vai morrer e todos vão ficar, é o luto mais intenso.

E é comum pacientes terminais quererem se matar?
Quando eu dou a notícia, e a gente conversa sobre a morte, eu pergunto se a pessoa tem medo ou deseja que chegue rápido. Quando a pessoa diz que tem pensado muito em morrer, eu pergunto se está planejando e peço detalhes, porque pior do que se matar é tentar e não conseguir: as sequelas podem ser piores. E o próprio paciente vai se dando conta de que aquele não é o caminho mais fácil.

Como o contato com a morte muda o dia a dia na vida?
Eu dou palestra sobre como lidar com a morte há três anos no The School of Life, e o feedback das aulas é que uma vez em contato com o tema, não tem como voltar, você passa a agir de outra forma em relação ao trabalho, aos relacionamentos, à expectativa de realização, você toma consciência de que você tem prazo. As cenas continuam as mesmas: tem contas pra pagar, brigas na família, você toma um pé na bunda, você dá um pé na bunda, mas a forma de viver a experiência é diferente.

Ana Claudia de Lima Quintana Arantes

Você acha que está preparada para a morte?
Acho que sim, todo dia eu penso: se eu morresse hoje eu disse ‘eu te amo’ para todas as pessoas que importam? Fiz o melhor que eu podia do meu dia? Cada dia eu penso seriamente sobre isso.

E a sensação de ficar mal quando alguém morre?
É que a gente não tem certeza que o outro morreu satisfeito com a vida que ele tinha aquele dia. Mas, por exemplo, fiquei feliz demais com a morte da Elke Maravilha, imagina ter vivido inspirando as pessoas a sorrirem quando lembram de você?

E em casos como a morte do ator Domingos Montagner, em que não há despedida? Como trabalhar esse luto?
Se a gente tem essa noção clara de que a vida acaba e que pode ser a qualquer dia desses, o preparo para este momento está em viver. Esse moço fez isso em plenitude e compromisso. Em 54 anos alcançou espaços pessoais e profissionais de altíssimo nível e certamente soube se fazer presente e inesquecível na vida das pessoas que o amam. Eu acredito que por isso, apesar da dor indizível da perda súbita, o sentido da vida dele não ficará no fundo do Rio São Francisco.
Mas a saudade de quem fica não passa…
É, o amor não passa com a morte.

Fonte: O Globo/por Viviane Nogueira (19.9.2016).

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