Amy Winehouse- performance - foto: Chris Christoforou/Redferns

Não existe artista recente com quem tenha dialogado mais com as músicas do que Amy Winehouse. Carrego comigo tamanha identificação desde que ouvi suas primeiras músicas e, de forma mais radical, em 2015 quando eternizei o verso “what’s inside her never dies”, em tradução literal, “o que está dentro dela nunca morre”, trecho da canção “He can only hold her”, em minha pele. Essa música, aliás, nem é das minhas preferidas, mas esse trecho!

Pensar que o sentimento que está dentro de nós nunca morre me soa bastante acertado. Alguns afetos sinceros e bastante relevantes repousam, vivem em conflito dentro de nós e, principalmente, se transformam. Esses grandes amores, porém, não morrem: viram lembranças boas, paradigmas, saudade, tristeza, nostalgia… a completa indiferença em relação ao que muito já se amou, aos meus olhos, é algo impossível.

Os dissabores de fim (ou de pausas, quem sabe?) de relacionamentos, seja lá quais sejam suas matizes e classificações, não podem apagar uma história bonita seja dentro de um relacionamento familiar, amoroso ou entre amigos. Querer se desfazer de tudo, incluindo as memórias e esse respeito pelo que se viveu junto, é uma estratégia que parece muito racional à luz do sofrimento e/ou da decepção, mas que o amor, aquele restinho que teima em ficar mesmo nas condições mais adversas, não permite que a tarefa seja levada à cabo.

Evidente que em muitos momentos da vida essa missão de apagar pessoas do rol das pessoas queridas foi bem sucedida. Afinal, a própria vida se encarrega disso com bastante naturalidade. Entendo, porém, que quando alcançamos a indiferença pelo outro que um dia já acreditamos amar é porque o que existia não era sólido o bastante para deixar raízes que impeçam esse completo apagar do outro e do que se viveu junto. Tratava-se, assim, valendo-me das palavras de Zygmunt Bauman, de mero amor líquido. Vale a pena, a título de contextualização, a leitura desse trecho do prefácio da obra “Amor Líquido” cujo:

O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar-se”. E, no entanto desconfiados pela condição de “estar ligado”, em particular de estar ligado “permanentemente” (…) pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para – sim, seu palpite está certo- relacionar-se.

Bauman apregoa que tal como a morte, só nos deparamos com o amor romântico uma vez na vida, embora a paixão insista em nos iludir nesse sentido. Em Amor Líquido, o sociólogo atesta que:

Pode-se supor (mas será uma suposição fundamentada) que em nossa época cresce rapidamente o número de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de suas experiências de vida, que não garantiriam que o amor que atualmente vivenciam é o último e que têm a expectativa de viver outras experiências como essa no futuro. (…) Afinal, a definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda (…) o desaparecimento dessa noção significa, inevitavelmente, a facilitação dos testes pelos quais uma experiência deve passar para ser chamada de “amor”.

Não é, definitivamente, sobre esse amor que me refiro quando falo em amor que nunca morre, pois, como diria Otto em (sua lindíssima música) “6 minutos”: “até pra morrer, você tem que existir”. Um grande e verdadeiro amor não morre se ele não foi um grande e verdadeiro amor, simples assim. Penso, porém, que o trecho acima, considerando as nuances entre diferentes formas e tipos de amor, seja um norte para compreendermos a fragilidade dos laços humanos dentro, até mesmo, de nossa esfera mais privada de relacionamentos. Minha primeira coluna aqui para Prosa, Verso e Arte fala bastante sobre isso e complementa a de hoje. Se quiser dar uma lida, clique aqui. Garanto que vale a leitura! Risos

É preciso, portanto, não ter medo de se entregar para viver o oposto desse amor líquido, demasiadamente frágil, ausente dos compromissos. Seja na esfera amorosa, familiar ou das amizades, não importa, não podemos nos esquivar de sentir do começo ao fim das nossas relações. Não dá pra amar pela metade, é fundamental se permitir viver a intensidade e responsabilidade que o amor traz. Sim, amar, dentre tantas coisas, também é um ato de coragem.

Dentro dessa lógica, compreendo que Amy era muito corajosa: em seu repertório, com especial destaque para as faixas de “Back to Black”, o amor é presença recorrente, bem como os seus desencontros amorosos com Blake, com quem foi casada. Sua vida pessoal é um testemunho (insano, para alguns) desses desencontros e, aos meus olhos, desse sentimento que não morre.

“Bold as Love”, como já dizia a música de Hendrix, Winehouse caminhava na contramão do amor líquido. Se o amor lhe parecia um jogo de azar, como descrevia em sua profunda “Love is a losing game”, cujos dissabores a adoeceram e fizeram com que estreitasse sua relação com bebidas e drogas que custaram-lhe não só a vida, tempos depois, mas uma quase internação como descreve no hit “Rehab”, fato é que Amy não desistiu de sua relação com Blake. Apesar de acordar (“Wake up alone”) e secar suas lágrimas sozinha (“Tears dry on their own”) ela acreditava verdadeiramente que não havia amor maior do que o que ela sentia (“There is no greater love”) e, por isso, lutava por ele.

Ouvir Back to Black, disco de origem das músicas elencadas acima, é ouvir um manifesto de crença no amor mesmo diante do seu aparente fim. É perceber que esse amor cantado, por mais louco e destrutivo que nos soe, era suficientemente sólido e verdadeiro para não morrer e se transformar em algo triste, mas muito bonito.

Acredito que o ponto final (ou ponto e vírgula, que seja) que colocamos em nossos relacionamentos não precisam ser tão trágicos ou doloridos como foram para Amy. Penso que é sempre tempo de revisitar o passado e colocar as coisas em ordem, seja superando as mágoas, ajustando a falta de sintonia quando possível ou simplesmente tirando o peso desses finais de ciclos. Para isso, creio ser necessário compreender que o amor é elástico e mesmo quando já não parece caber em nossa vida.

E, por ter essa capacidade, ele pode nos surpreender em sua generosidade transformando-se em um legado bonito de aprendizado e lembranças dos bons momentos quando da inviabilidade da retomada, na prática, desse sentimento por alguém que já esteve em nossa vida. Como nos ensinou Erich Fromm “o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso”. Amy sabia disso.

*Anna Carolina Cunha Pinto, colunista da Revista Prosa, Verso e Arte, escreve sobre suas percepções do mundo associando-as com conteúdos de Filosofia e Sociologia. Formada em Direito pela Universidade Cândido Mendes, mestranda em Sociologia e Direito pela UFF e apaixonada por filosofia.

Leia outras colunas da autora:
Anna Carolina Cunha Pinto (colunista)

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS