Amor em tempo de guerra - Gilberto de Faria

A visão daquela região longínqua de Goiás era exuberante. Um planalto imenso, muito despovoado e com várias matas que cresciam sempre ao redor de alguma corrente de água. O sol estava queimando e arrebentando mamona, como aí se dizia. O panorama vazio, de repente, foi povoado por um cavaleiro, que vinha devagar de acordo com o clima, montado em uma linda égua tordilha. Estava cansado e de vez quando tirava o chapéu e enxugava a testa molhada de suor. O animal também vinha cansado, o que demonstrava que vinham de bem longe.

Ele tinha o rosto fechado, sério, preocupado. Não só parecia, mas estava envolvido em sérios problemas. Pensava na sua chegada naquela região, depois do sequestro de um Embaixador em Belo Horizonte, sua cidade natal. Um pequeno sorriso assomou em seus lábios ressecados enquanto recordava o sucesso do empreendimento, com o qual conseguiram libertar a 70 companheiros que estavam nas mãos dos militares que dominavam o país no momento. Os combatentes presos estavam sofrendo as piores torturas nas mãos de seus captores. Realmente, depois do sucesso do sequestro a repressão caiu em cima deles com furor e ódio. Agora seu rosto ficou mais sério, lembrando-se de como conseguira escapar e ser trasladado pela direção de seu grupo revolucionário para aquele lugar remoto. Aí estava seguro.

Um companheiro já estava morando no local, em um pequeno sítio comprado justamente para esconder quem não poderia ficar mais em grandes cidades, como era seu caso.
Chegara com dificuldade pois todas as estradas estavam vigiadas. Mas, por sorte, tinha o hábito de montar e com isso conseguira vencer as barreiras sem despertar suspeitas. Afinal, o cerco era sobre o trânsito de automóveis.

O lugar era paupérrimo e o pessoal de dar pena. Viviam pela sobrevivência e um deles, mais inteligente, um negro de uma força descomunal chamado Joaquim, havia construído uma pequena olaria, já que o terreno era bem argiloso fornecendo boa matéria prima e tinha a mão de obra à sua disposição. Como sempre, sendo o patrão, explorava bem os vizinhos e por isso tinha uma vida um pouco melhor, inclusive sua casa, melhor construída.
Adaptara-se rápido. Chegara montado na Flôr de Minas, que logo encantou os moradores, quase todos com uma mula no terreiro.

Fizera bons amigos entre aqueles que já estavam adaptados com o Eunício que era o proprietário da casa. Eunício plantava para comer, verduras, legumes, galinhas e seus ovos e carne, enfim, fome não passava. As compras eram feitas na venda de “seu” Idalino, que, como possuía uma velha caminhonete, tinha a possibilidade de ir ao povoado mais perto e trazer as mercadorias de primeira necessidade para o povoadozinho que se chamava Olhos d’água. É claro que eles pronunciavam zoio dagua.

O cavaleiro avistou bem ao longe as copas das árvores de uma boa mata, onde ele descansaria, beberia água do riacho que por ali corria garantindo o verde do lugar e abreviaria a Flôr, que ao sentir a umidade da mata aumentou o passo.

_ Ah malandrinha, agora quer andar depressa – ele disse para ela que moveu suas orelhas para trás.

Mas, não forçou o animal.Continuou devagar, pensando. Acabara gostando daquele lugar. Afeiçoara-se com os habitantes, ensinava-lhes o que podia e aprendia muito com eles, distribuia remédios para as crianças, e camisinhas para as mulheres, coisas que recebia da cidade através de seu contato. Sempre pedia alguma coisa que fosse útil para aquele povo. Recebia tambem revistas e jornais, coisas úteis para ele e Eunício.

O vento mais fresco bateu em seu rosto lhe fazendo bem. Encostou a espora na barriga de Flôr e ela respondeu aumentando a passada. Estava quase chegando a seu “quartel”( assim apelidara o lugar carinhosamente) – pois já sentia os músculos da perna reclamando.
Mais um pouco e entraram na mata, não muito fechada, composta de árvores seculares, nativas e adaptadas ao lugar. A sombra era maravilhosa. Viu uma pequena lagoa mas passou direto,pois sabia que a água era poluída. Mais um pouco e chegou ao riacho, de águas claras e corrente. Apeou e caminhou para a água puxando a égua. Bebeu à vontade e viu o animal parado dentro da água com ela escorrendo pela boca, de satisfação. Depois voltou e achou um bom lugar para descansar enquanto Flôr pastava por ali. Em baixo estava a lagoa e ele podia sentir um pouco seu mau cheiro.

Sentou-se sob a boa sombra e tirou o fumo para preparar o palheiro. Depois de pronto o acendeu e se deitou com o rosto coberto pelo chapéu para impedir a chegada da mosquitada.

De repente, Flôr soltou um ar pelo nariz.Tirou o chapéu e olhou em volta. Sim, vinha alguém, andando devagar, talvez cansado. Levantou um pouco o pescoço e então viu.

Era u’a mulher. Vinha andando sem pressa ; olhando em volta percebeu a presença de Flôr. Procurou o cavaleiro, mas a sede era maior que a curiosidade. Chegou perto do lago e se abaixou, com as duas mãos fazendo uma concha para beber.

Então, o homem se levantou e vendo que a mulher já estava pondo a água na boca correu e deu um tapa em suas mãos derramando a água. A mulher deu um salto para o lado, ele escorregou e para parar agarrou um pedaço podre de árvore. Mas, aí então sentiu um vento rápido e viu uma cobra coral dar o bote e pegá-lo no ombro. Assustado ele bateu com o chapéu nela, que saiu rastejando rapidamente.

A mulher viu o que aconteceu. Rapidamente se aproximou dele, que estava sentado, arquejando.
– Está ferido? Ela perguntou.
_ Sim, a cobra me pegou no braço.
Ela olhou seu braço e notou os furinhos na jaqueta.
– Sim, senti a dor – completou.

De repente, sua vista começou a nublar. Deitou-se devagar e ela apoiou sua cabeça.
– Está passando mal?

Ele sentiu o seu cheiro de mulher, coisa que não sentia há muito tempo. Então olhou para ela.O que viu o deixou emocionado. Ela era bonita, o rosto com um pouco de sarda,o cabelo crespo e claro cortado rente, como um rapazinho o que deixava seu pescoço à vista. Era jovem, sadia e falava um pouco melhor que o pessoal do povoado.

_ Quem é você? Perguntou.
_ Eu sou filha de d. Hemengarda, conhece?
_ Sim, conheço, mas não sabia que ela tinha uma filha.
_ Eu não moro aqui, moro em Dourados. Vim visitá-la,apenas. Meu nome é Maria.

Com dificuldade ele tentou sentar-se, mas percebeu que seu braço estava dormente e não o obedecia. Seus olhos abriram com dificuldade. Sentiu que não estava bem.

– Maria, não estou bem. Devo ficar imóvel para evitar uma circulação rápida do sangue. Por favor, pegue minha égua e corra até a casa do Joaquim da olaria. Ele virá me buscar no caminhão que tem. Vamos, apresse.

_ Não vou deixá-lo sozinho.
_ Deixe de bobagem, você não pode fazer nada por mim aqui. Vamos…

Ela compreendeu a situação quando o viu amarelo e falando com dificuldade.

_ Já vou… e saiu rapidamente.

Deitado ele ouviu Flôr sair à galope e pensou que ela deveria montar bem, pois a égua era aborrecida quando algum desconhecido tentava montá-la.

De repente, sentiu uma fraqueza extrema.Olhando para as árvores começou a vê-las movendo e sabia que eram suas vistas que estavam mal. Deitando a cabeça no chapéu, adormeceu.

Acordou com a agulha entrando em sua veia. Com dificuldade abriu os olhos e viu um senhor ajoelhado lhe aplicando uma injeção.

_ Acordou rapaz?
_ Sim… Quem é o senhor?
_ Ah… Está bem da cabeça. Sou o farmacêutico de Águas Boas e estava passando quando fui parado por uma jovem à cavalo que me contou o drama. Então, voltei para aplicar-lhe o soro anti-ofídico. Por sorte sua, tenho muitos no carro, estou levando para Dourados. Como se sente? Perguntou tirando a agulha e passando um algodão molhado no alcóol.
_ Mal, muito tonto,a vista nublada.
_ É natural, o veneno é crodálico, da coral e da cascavel. Mas, vai escapar,parece-me que sua blusa de couro impediu que ela cravasse demasiado as presas. Não entrou muito veneno.
_ Uf… Imagina se entrasse tudo?
_ Já estaria morto. Vamos, levante vou te levar até o carro. Vocês vaqueiros têm fama de valentes – acrescentou e percebi que ao me ajudar a levantar sentiu o volume da automática.

O carro do farmacêutico seguiu em direção à olaria e sua casa. Com poucos minutos sentiu-se mal e se deitou, pois estava na parte de trás do carro. Só acordou quando o colocavam na cama em seu quarto. Abriu os olhos e viu Eunício nervoso, os outros moradores olhando com caras de piedade. Ele viu Maria, andando de um lado para outro e dando ordens. Eunício pediu para que me deixassem só no quarto. Ficamos os dois.

_ Então, comandante, a coral não é mole, hem?
_ É, Eunício é um veneno poderoso. Preciso urinar para ver se sai sangue.

Eunicio saiu e logo voltou com um penico. Com dificuldade ele se levantou um pouco e urinou, percebendo que não tinha sangue. Sorriu aliviado;
_ É, parece que o dano não foi tanto.

Eunício olhou pela janela e se voltou apressado.

_ E a festa?

Então lembrou que essa noite teriam uma festa no sítio, dia de São João. Tinham matado um bezerro e a vila estava bem animada.

_ Vai ter a festa Eunício, precisamos dar alegria para eles. Por causa de um soldado a guerra não acaba.

Eunício saiu e ele ficou em uma madorna gostosa. Nesse momento, Maria entrou devagarzinho e ele continuou com os olhos fechados.

_ João- disse baixinho – não morra, te esperei tanto!
Aí ele abriu os olhos e ela enrubesceu.
– Pensei que estivesse dormindo.
_ Não, e ouvi o que disse. Eu tambem não quero perdê-la Maria. Ela se aproximou e ele segurou sua mão.
Sentiu-se bem bem ao perceber seu calor e o cheiro da bebida que ela já havia tomado preparando-se para a festa.
_ Seria bom para nós vivermos juntos aqui – ele disse.
Ela se a fastou e o olhou pensativa.
_ Você não sabe nada sobre mim.
_ Nem você sobre mim. Assim é melhor, o passado passou.
_ Não é tão fácil assim.
De repente a chamaram e ela se foi rápida como uma gazela.
Eunício entrou e percebeu sua agitação.
_ Está gostando da moça comandante?
_ Sim, fale-me sobre ela.
_ Bem, ela é filha de D. Hemengarda e mora em Dourados. Quando tinha doze anos foi estuprada por um soldado da delegacia. Seu irmão, o Arlindo, o matou e até hoje está preso em Goiânia. Ela tem uns vinte anos e pelo que sabemos é mulher dama na cidade grande.
_ Prostituta Eunício?
_ Sim, não creio que seja boa companhia para você, apesar que sabemos que necessita de uma companheira por esses ermos.
Ele ficou pensativo. Depois fazendo um esforço se sentou na cama.
_ Não me importo. Vou ficar com ela.
_ Você é quem sabe. E ela está querendo?
_ Parece que sim.

Eunício saiu e ele ficou triste por não poder estar na festa. Logo a fraqueza o dominou e ele dormiu mais uma vez.

Acordou de repente, pois a festa começava a ser barulhenta, a música estava alta e percebeu que estavam dançando. Sentiu uma tristeza imensa e um pensamente angustiante veio à sua mente: a que poderia morrer sem voltar a conhecer o consolo do corpo de uma mulher; era uma tortura difícil de suportar.

De repente, Eunício entrou no quarto.
_ Comandante, um carro da polícia está na porta.
_ O que querem?
_ Não sei; vou recebê-lo.
Eunício saiu e Maria entrou.
_ Como vai João, está melhorando?
Notou que ela estava vermelha, talvez estivesse bebendo.
_ Sim, o sôro fez seu efeito. Maria, queria lhe falar…
_ Psiu…-ela pôs o dedo em seus lábios- amanhã conversaremos.
_ Mas, você sabe o que lhe quero falar…
_Sim, eu tambem tenho o que falar.
_ Ótimo, amanhã então.
_Sim, na casa de minha mãe
Eunício entrou com um policial. Pode notar que era um sargento.
_ Boa noite, como está? soube que uma coral o picou.
_ Sim, mas já estou melhorando.
_Aqui está cheio de cobras, pois estão sendo expulsas lá onde estão limpando para fazer um açude.
_ Tomei o sôro, mas está tudo bem sargento?
_ Sim, estamos fazendo uma ronda de rotina, sempre que tem alguma festa aparecemos, as vezes os ânimos se exaltam.
_ Não aqui. Temos um pouco de disciplina.
_ Eu sei, é um povo trabalhador.
_ Sim, somos todos amigos e Eunicio vigia para que não passem a mão no gole. Por falar nisso, vão lá beber um pouco.
_Obrigado “seu” João, mas estamos de serviço.
_ Ah, compreendo, peça ao Eunício para dar um pouco de carne para vocês levarem, afinal vai sobrar muita.
_ Ah, aí sim.Obrigado e melhoras.

O sargento se foi e escutou alguns soldados brincando com as meninas. Sem querer sentiu ciumes por Maria. Sorriu; que bom, se sentiu vivo e alegre.

A festa durou até quase as três da manhã. Mas, ele passou a maior parte do tempo dormindo. Sentiu várias vezes a presença de Maria e o cheiro da bebida e cigarro…

Acordou cedo, mas já havia barulho pela olaria. Tentou levantar-se e conseguiu andar fazendo uma vassoura de bengala. Saiu à porta e sentou-se no banco que ficava debaixo da mangueira.

Eunício o viu e veio correndo

_ Ôpa, andando já? Quer que trago o café?
_ Sim, companheiro.E faça um palheiro para mim.

Sentia-se alegre, tentando se fortalecer para ir à casa de d. Hemengarda. Mas, antes, chamou um garoto que estava por ali e pediu para que ele fosse à casa de Maria e a avisasse que ele estava indo.

O menino saiu serelepe, alegre por cumprir uma tarefa.

Ele encostou-se nas costas do banco e fechou os olhos. Pensou em sua chegada alí, como havia sido difícil. Depois do sequestro do cônsul americano a repressão virou o diabo. Alguns companheiro caíram, mas a maioria escapou, ele inclusive. A ditadura estava com sede nele e sabia muito bem o que passaria caso o pegasse. Depois de um tempo escondido, conseguiu viajar para o sítio de Eunício, que também participara do sequestro, mas estava limpo.

O menino voltou.
_ Então meu amigo, deu o recado?
_ Sim, falei com a mãe dela. Mas, a moça foi embora bem cedo. A mãe disse que não falou porquê.
Foi como uma facada no seu coração.
_ Como? Foi embora? Olhe, me ajude aqui e traga aquela cabo de vassoura para mim.
O menino se espantou com a atitude dele e foi buscar o cabo de vassoura.
Eunício veio correndo.
_ Que foi? Aonde vai?Senta…
– Não Eunício, vou à casa de d. Hemengarda, sozinho!

O companheiro o ajudou e ele seguiu com a fraqueza nas pernas e o coração pulando na boca.

A casa de d. Hemengarda era muito simpática. Na entrada, depois de um pequeno portão, passava-se por um jardim muito bem cuidado.Meio tonto e fraco ele subiu os degraus que levavam à varanda. Quase caiu. A mulher apareceu na porta.

_ “Seu” João! O sr.está bem?

Ela aproximou e o susteve um pouco.
_ Venha entre…

Ele entrou se sentou em um sofá.
_ D. Hemengarda…
_ Não, não fale, vou trazer um copo d’agua.
Ela voltou e ele bebeu.
_ O que aconteceu, me conta…

Ele suspirou fundo e olhou para o chão.
_ Trata-se de Maria…
_ Ah, eu sei, ela me contou, mas foi embora cedo e chorou muito à noite.
_ Mas, por quê Hemengarda?
– Ela me disse que o senhor não merece se misturar com ela.

Sentiu-se pior. O suor descia por sua testa. Carinhosamente, a mulher sentou-se a seu lado e começou a enxugá-la com o avental que usava.
Ele se comoveu e a abraçou.
_ D. Hemengarda quero casar ou morar ou viver com Maria,por favor vá e a traga para mim.

Vou morar com ela, tirá-la da vida na cidade e amá-la com força. Também vou pedir a um advogado meu amigo para que olhe o caso de seu filho.
A mulher soltou um gemido alto.
_ Não,não pode ser verdade, eu ter meu Arlindo de volta!
_ É verdade. Se a senhora quiser ir buscar Maria aqui tem esse dinheiro para as despesas. E diga-lhe que a amo com toda força do meu coração.
D. Hemengarda caiu de joelhos a seus pés e ele enojado tentou levantá-la.
_ Meu anjo, disse, meu anjo… E soluçava barulhentamente.

Dias vão, dias vêm. Ele voltou a sua vida de organização da base de apoio para o qual fora designado por Mariguella. Levantava cedo, montava e ia estudando o local para caso de fuga ou resistência. O povoado, principalmente os homens, já o ajudavam mais ou menos percebendo sua intenção. As mulheres também participavam ativamente e ele começou a mudar o conceito machistas que tinham, comum no interior. Também obrigou os moradores a construírem fossas o que ia melhorando a saúde principalmente das crianças, sempre atacadas por diarreia. Para as mulheres ele tinha dois presentes: um, o leite em pó que o companheiro de contato trazia e o outro as pílulas anti-concepcionais que elas amavam.
Mirim, o rapaz que viera para lhe dar apoio na segurança, cuidava muito das armas e Eunício na lida normal da vida de um sítio. Suas plantas estavam bem cuidadas e comíamos muito de suas verduras, legumes e frutas o que diminuía muito a ida ao povoado maior fazer compras.

Perto do sítio existia uma lagoa grande que era muito piscosa. Ele gostava de ir lá pescar alguns peixes para sua dispensa e também ficar sozinho, reflexionando e estudando. O lugar era muito bonito, muita vegetação, canto de passarinhos e solidão. Às vezes lhe cansava conversar muito com os campônios, escutar sua deformação do português procurando aprender, mas com pouca conversa para um intelectual. Assim aí tambem descansava dessa missão. Levava seu rádio pois estava sempre esperando alguma notícia das grandes cidades.
E foi assim naquela tarde.

Foi pescar a pé, levando os apetrechos, mas a maioria já ficava no local. Sainda da vila olhou a casa de d. Hemengarda, há muito fechada pois a mulher não voltava da viagem que ele pedira que fizesse.

E pescando estava, com o rádio ligado, distraído, mas seus instinto o avisou que estava sendo observado.

Virou-se já com a mão na automática, mas parou encantado.
Lá em cima do barranco, sorrindo para ele estava a moça.

_MARIA! Gritou quase sem querer.

Fincou o caniço na terra e correu para recebê—la. Abraçou-a, sentindo seu corpo mais gordinho, acariciou seu cabelo, seu pescoço e afastando-se um pouco olhou-a com carinho.
_ Maria, quando chegou?

Ela pôs o dedo em sua boca pedindo silêncio, pela segunda vez ele percebeu, e chegando-se bem perto o beijou, carinhosamente.

_ Cheguei ontem, mas estava muito cansada,por isso caí no sono. Acordei e fui no Joaquim e e ele me disse que você estava aqui. Então vim correndo. É verdade tudo que minha mãe me disse?

_ Não sei o que sua mãe lhe disse mas digo que sim.
_ Oh João…Olhe, a vara está mexendo, parece que pegou um peixe.
Ele correu para a vara e a tirou da água. Quando a linha acabou apareceu um belo peixe, brilhando à luz do poente.
_ É um mandí João.
_ Sim, vamos comê-lo aqui. Cuide dele enquanto vejo se tiro outro. Naquele saco acima tem o que precisa.

Pescou outro mandí e em um fogão improvisado fritaram e comeram os peixes. Já escurecendo, sentaram, conversando um pouco. De repente teve uma ideia:
_ Maria, aqui perto tem uma gruta que descobri e fiz dela um esconderijo. Tem tudo que se precisa para sobrevier uns dias. Vamos para lá? Passar a noite lá?
Ela olhou demoradamente para ele.
_ Você está no comando, querido.

A gruta realmente tinha se transformado em uma sala com tudo que se precisasse para viver ali um pouco. Ele acendeu um lampião a querosene e se prepararam para descansar.
Ele lhe contou tudo. Porque estava ali, porque participara de um sequestro de um embaixador para libertar companheiros presos, por lutava contra a ditadura militar.
Ela escutou calada.

Quando ele parou para pegar um folego, ela tirou sua blusa e exibiu seus seios sem nenhuma vergonha. Ele se aproximou e a beijou com ternura.

E ali se amaram, se conheceram, tiveram o prazer que só um casal que se ama pode conhecer…

Pela manhã foram para casa. Ela um pouco emburrada pois ele não permitira que ela fosse morar em sua casa.

_ É muito perigoso, Maria. Na casa de sua mãe você fica isenta de perigo.

E o sítio de Eunício se transformou num recanto de felicidade e alegria. Apesar de ali não morar, todas as manhãs Maria estava lá, ajudando Eunício, liberando-o para cuidar melhor de suas plantas. O homem se sentia feliz, sua testa deixou de enrugar como era seu costume quando estava tenso. O irmão de Maria, que estava em liberdade condicional conseguida pelo advogado amigo, montou um pequeno atelier onde ele consertava e fabricava apetrechos de monta, como arreios, laços trançados e chicotes. A olaria produzia bem, o pessoal parecia feliz.

Mas, um dia o contato da cidade veio conversar com ele. Precisavam dele para um treinamento de armas modernas de um capitão que havia desertado do exército e as levara. Era primordial que se adaptasse com um armamento mais moderno.

No outro dia, ele partiu com o contato. Maria molhou os olhos, mas não se desesperou. Eunício o abraçou e disse:
_ Vá tranquilo comandante, eu garanto a retaguarda.

Um mês depois, voltou. Mais magro do que sempre fora, de bigodes e cabelos grandes. Chegou às cinco horas e às sete o povoado fazia uma festa pelo regresso. Desta vez ele bebeu com Maria, dançou um baião de Luiz Gonzaga e depois foram para a gruta. Ele lhe contou o que passara, como o campo de treinamento havia sido cercado e eles que eram treze conseguiram escapar a um cerco de dois mil militares. Ele estava entusiasmado, mas ela, pensativa, só escutava. Abriu a garrafa que trouxera, de aguardente por alí fabricada, beberam um pouco e fizeram o amor.

Voltou à rotina. Saia pela manhã e andava pelos arredores, forçando Flôr a sair da ociosidade que ficara enquanto viajara. Cada dia mais encantado com Maria, sentia sua falta se afastasse por meia hora. Ela vinha pelas manhãs da casa da mãe e procurava sempre deixar o local bem arrumado. Pensava que era o caso típico da mulher de vida que sonhava em ter um lar. Agora tinha e o tratava como um tesouro. Ele sempre impedia que ficasse dependente dele ou devendo favores. Ela era sua companheira e portanto partícipe de seus destinos.

Um dia, pela manhã, um negro alto e lustroso, chegou montado em uma mula violeta que era um brinco de bonita. Vinha de um quilombo que existia a alguns quilômetros da vila da olaria e trazia um recado para o guerrilheiro. Como se conheciam se abraçaram e fizeram piada. Depois sairam a um canto e o negrão deu o recado. Voltaram, juntaram-se ao grupo e fizeram uma recepção para o Dionízio, esse o nome do cavaleiro.

As quatro da manhã Dionízio se foi sem se despedir de ninguem, pois todos ainda estavam dormindo.

Quando se levantaram, ele chamou Maria e lhe disse:
_ Vá ao pasto de cima e traga o Gaúcho. Às dez horas vamos viajar. Quando voltar faremos a bagagem.

Brincalhona e contente pelo fato de passear, respondeu:
_ É para já, comandante!

Tudo arrumado saíram juntos, ambos armados pois ele já havia ensinado à jovem como lidar com elas.Deram adeus às mulheres que trabalhavam na olaria, cortaram por um atalho para não passarem no centro do povoado e entraram no sertão.

Era um silêncio perturbador. Doía tanto que ele e Maria não conversavam. Só se escutava o ruído dos cascos dos cavalos que avançavam contentes por darem uma cavalgada espichada. Maria ia bem, montava com galhardia e ele observava, encantado. Às vezes ficava para trás só para vê-la dominar o animal com suas redes e suas pernas. Depois se aparelhava com ela. Após um tempo perguntou:
_ Como vai? E o Gaúcho está bem?
_ Sim respondeu, Nós já nos conhecemos, ele é muito macio.
_ É mangalarga Maria. Comprei-o para você!

Ela se aproximou e lhe deu a mão e assim seguiram por um largo tempo, vivendo aquele momento encantador.
_ Te amo – ela disse.

Ele não respondeu, mas seus olhos se encheram de lágrimas.Não pelo prazer daqueles instante, mas por sua insegurança quanto ao futuro dos dois.

Dinízio levara um recado para ele do chefe do quilombo, o Ambrósio. As coisas estavam ficando ruim para eles. Um latifundiário queria suas terras e estava começando a provocá-los inclusive usando soldados da polícia militar. O guerrilheiro ficou preocupado.O quilombo era uma base de observação importante, e Ambrósio um companheiro leal e dedicado.
À tardinha, avistaram os casebres do quilombo. Já um cavaleiro vinha correndo para encontrá-los. Logo,ele identificou: era o filho do Ambrósio, de quatorze anos, que tinha adoração por ele.

Foram recebidos com festa. O pessoal gostava muito dele, pois fizera muito por eles para a aquisição daquelas terras. Depois, Ambrósio o levou para sua casa e Maria ficou com a mulherada.

_ Pois é companheiro – disse o quilombola sentando-se perto dele – Estou preocupado com esse negócio. Seria trágico termos de sair daqui.
_ Realmente, mas é preciso ter muita cautela, a ditadura é cruel.
_ Oh, e como sei! Mas, não vamos sair, decidimos em conselho, precisamos de armas.
-Uf, está assim disposto?
_ Terra ou morte!
-Tenho armas leve Ambrósio, pistolas e fuzil de pouco alcance, armas de defesa. Algumas granadas que são muito úteis. Há umas minas que poderão usar. Mandarei o companheiro Mirim para adestrar a negrada.
_ Hahahah as mulheres tambem, essas lutam até de machete.
_ Eu sei, mas estou de acordo com a resistência, mas só reaja quando atacado. Vou comunicar com a cidade para por nosso departamento jurídico de sobre aviso.
Depois ele e Maria foram para uma cabana mais afastada e lá ficaram, solitários e felizes.
Dois dias depois voltaram. Ele chamou Mirim e lhe deu as instruções.O jovem ficou todo entusiasmado.
_ Nada de bobagem Mirim, você vai, cumpre sua tarefa e volte. Temos outras responsabilidades, você sabe.

Mas, Mirim chegou tarde. Dois dias depois, um grupo armado invadiu o quilombo e assassinou todo mundo, inclusive mulheres, idosos e crianças. Mirim chegou a ver os corpos na cidadizinha ali perto. Perguntando sobre o que aconteceu lhe contaram que os negros haviam invadido uma fazendo e feito as maiores atrocidades e por isso a polícia foi prendê-los e eles resistiram.
_E eles tinham armas?
_ Sim, muitas armas.

Mirim sorriu amarelo. As armas estavam escondidas no mato.

Quando viu o cadáver da Amélia, mulher do Ambrósio, não se conteve e chorou. Sua roupa estava manchada de sangue que escorrera por suas pernas, evidência de que havia sido estuprada até a morte.

Virou as rédeas de Flôr e voltou, chorando copiosamente.

Ele ficou amargurado quando Mirim fez o relato. Andou de um lado para outro coçando a cabeça, como era seu costume.Eunício veio com um palheiro e dois dedos de cachaça.
_ É isso,amigo ou acabamos com eles ou eles acabam conosco.
_ Vamos invadir a delegacia e dar um castigo neles, disse Mirim – ainda traumatizado.
_ O quê?O homem pôs seu ´odio para fora – Quer acabar como nosso trabalho aqui, condenar o pessoal como os do quilombo por um sentimento pessoal de vingança? Que isso,Mirim? Então ainda não aprendeu nada?

O jovem abaixou a cabeça com as lágrimas descendo.
– Não posso, não aguento, estou arrebentado.
Carinhosamente ele se aproximou e colocou a cabeça do jovem em seu peito.
_ Eu sei, camarada, e como você pensa que eu estou?

Maria chegou e caiu nos braços de Eunício com um choro rouco e contínuo.
– Meu Deus – disse limpando o nariz – Como pode existir homens assim?

Ele saiu e ninguém o impediu. Andou até a lagôa e lá tirou sua automática e disparou seis tiros.Depois voltou entrou na sala e ninguém disse nada. Daí a pouco Maria os chamou para almoçar.

Alguns dias passaram com tranquilidade. Ele e Maria com o carinho de sempre, a olaria funcionando, o filho de d. Hemengarda com seu trabalho no couro.

Estava cavalgando muito,ora com Maria, ora sozinho. Sentia que cavalgando pensava melhor, deixava sua mente divagar, a lembrança de seus filhos sempre presente. Na esposa,procurava não pensar, pois sabia que era um sonho impossível de voltar. Pelas manhãs, ficava cuidando dos cavalos junto com o filho de Joaquim. Pouco a pouco, começou a falar aos moradores mais valentes sobre a guerrilha.

Mas, não há mal que sempre dure nem felicidade eterna. Uma manhã, andando pelos arredores viu um carro conhecido se aproximando do sítio. Com o binóculo, confirmou o carro e o motorista.

_ Uf! O dr. Valdemar!
Voltou a galope imaginando alguma tragédia. Só uma pessoa da cidade tinha licença para conhecer a área e o dr. Valdemar não era essa pessoa.

Desceu do cavalo e deu o menino amigo para cuidar dele que suava e bufafa, irritado com a espora.

Na sala, Valdemar examinava Maria, profissionalmente e ele franziu a testa.
Abraços e abraços e depois do café saíram os dois pelo terreiro.

Valdemar lhe pintou um quadro aterrador. A derrota estava rondando nossa organização. O contato tinha sido capturado, mas suicidou-se antes de ir para os porões da tortura.
_ Pois é irmão,prosseguia Valdemar, o comando nacional resolveu dar um golpe mortal na repressão e você está envolvido.

O coração do homem bateu na boca.
_ Eu? E o trabalho aqui?
_ Ora, terminado o trabalho você volta.

Ele sorriu. Sentiu o frio da morte em suas costas.
_ É uma possibilidade. Mas, que tenho de fazer?
_ Venho te buscar…

Ele olhou para o céu.
_ É o que temia.Quando vamos?
_ Agora – Valdemar não conseguia disfarçar seu constrangimento.
_ Vou aprontar.

Ele saiu e entrou na sua casa.
Maria veio correndo.
_ Mas notícias meu bem?
_ Sim, a pior possível.
Maria ficou apreensiva.
_ Tenho que viajar.
_ Não, não vai – ela disse como uma ordem.
Ele sorriu e segurou sua mão.
_ Sou um soldado, querida.
_ NÃO! Ela gritou, você é meu homem – e caiu em prantos.

Ele a carinhou, ajeitou seus cabelos, beijou suas lágrimas, depois de leve os seus lábios.
_ Te amo Maria, demais, te amo demais. Não existe no mundo outra mulher como você. Ajuda-me a arrumar minhas coisas.
_ Não, estou na casa de mamãe.
Ela saiu quase marchando.
Ele sentou e chorou, chorou copiosamente, chorou como se despedisse de tudo.
Arrumada a mala, foi saindo, mas Maria voltou e o levou para dentro.
_ João,você vai… e nosso filho?

Ele olhou para ela desconsolado.
_ Se for homem,chamará João e se for mulher Maria. Continuarei vivendo nele e assim tenho certeza que nunca morrerei.

Ela veio abraçá-lo, mas ele a empurrou.
_ Não vamos sofrer mais.

A Vila entrou em luto. Valdemar saiu devagar, com seu Buick automático. Ele abanou a mão para todos e gritou para o menino:
_ Se por acaso não voltar, o Piloto é seu.
– Não, não quero.Ele é seu – e abriu num choro convulsivo.

Valdemar chegou numa estrada melhor e começou a correr. Quando viram o asfalto, meia hora depois,eles conversaram.
-Está grávida, você sabe, né?
_ Sim, doutor,ela me disse.
– Sinto muito camarada.
_ Não sinta nada, estamos cumprindo nosso dever.
Valdemar concordou com a cabeça.

Andaram todo o dia, sem problema.Um lugar muito abandonado de Goiás. A vegetação era de cerrado,muitas árvores meio raquíticas,muita poeira e muita secura. Os lábios dele já sentiam a falta de água.

Valdemar corria.Parecia que seu estado de nervo estava influindo em seu pé direito. Ele estava cochilando, pensando em seu “quartel”, em sua mulher, em seus peixes, na vida que havia vivido nesses últimos tempos.

De repente, um carro veio em alta velocidade, os ultrapassou e diminuiu a velocidade, obrigando Valdemar a dar uma freada brusca.

_ Mas, que barbeiro! Exclamou, e foram suas últimas palavras.

Ele percebeu que outra carro avançava rapidamente em direção ao seu, por detrás. Ouviu um estampido e o carro deu um pulo, escutou barulho de vidros quebrados, e quando olhou para frente viu o carro desgovernado e no para-brisa, sangue, cabelo e miolos de Valdemar.
O carro saiu da estrada e bateu em uma árvore. Tonto, ele retirou o cinto de segurança e deslizou pela porta que estava aberta.Então, recebeu uma coronhada na base do crâneo, cambaleou e não conseguiu sacar o revólver ,outra coronhada e caiu, os olhos fechando, o sangue escorrendo pelo nariz, olhou para o céu… e tudo escureceu…

Belo Horizonte-MG, outono de 2016

BREVE BIOGRAFIA
Gilberto de Faria, natural de Belo Horizonte, jornalista formado em sociologia, diplomado na Universidad de Chile quando exilado politico, contos publicados pelo Mercado Aberto.

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