Fernando Pessoa, ilustração João Fazenda

A psicologia de qualquer ente humano, como de qualquer agrupamento deve orientar-se no facto seguinte: de que cada espírito, pessoal ou colectivo, tem duas vidas e um aspecto geral proveniente da síntese dessas vidas: a vida que vive para si, a vida que vive para os outros e o modo como estas duas se relacionam, distinguem, penetram ou (…) na formação do indivíduo psíquico. Há em todo o homem – e em toda a sociedade – um instinto materialista e um instinto idealista, interior. Quem passeia, quem passa a vida mesmo entre portugueses, alemães, ingleses – fechando-se para a sua literatura popular ou elevada – não poderá nunca compreender ou conhecer isto, que é um facto certo – de que em cada português, alemão, inglês há, mas não visivelmente e para o exterior, aquele sent[iment]o que um Camões, um Goethe, um Shakespeare traz a público.

Os homens de génio são os representantes dessa alma íntima dos povos; falam alto o que a si mesma a dispersa alma nacional segreda no divino silêncio do ser.

Dado pois que a literatura nada mais é que a voz do subconsciente nacional, oralizado em certos e determinados indivíduos que a natureza investe – por que obscuras leis sociológicas não sabemos ainda – de poder representativo; dado isto, (…)

O génio militar, o génio científico não podem ser pois representativos; não são funções da actividade interior, mas do exterior, ou na sociedade (…).

Nem, das artes, é representativo para o psicólogo, quer as artes da visão (arquitectura, escultura, pintura) nem a música. E não o são porque representam parte da alma nacional, não essa alma íntima e completa.

A arquitectura dum povo pode dizer-nos se esse povo ama o grande e o sublime; mas isso também a sua poesia alto [?] dirá. A pintura e escultura dum povo podem inteirar-nos do amor da forma, da beleza, da cor que caracterizam essa nação; mas isso também na sua poesia poderá ser visto. A música que os compositores desse país produzem inteirar-nos-á de se esse povo é de ânimo alegre ou triste, d’este ou daquele modo triste, alegre d’este ou desse modo; mas isso também a poesia dum povo mais íntima, mais (…), mais explicativa-mente dirá.

As artes inferiores dão luzes sobre esta ou aquela qualidade do sentir, do pensar desse povo; mas nenhuma delas sabe todas essas qualidades, sabe as suas anti-relações.

É fácil achar a analogia que fixe a significação do que dizemos. As artes da visão serão [?] como os gestos dum indivíduo – forte, nítida e insuficientemente representativos do que sente ou pensa, e nada mesmo das nuances íntimas do que pensa e sente. A música – essa é como a expressão física, mais perto da alma do que o gesto; mais directamente vinda dela do que a própria palavra mas na sua imensa expressão, nada representativa, nada distinta e analítica. A palavra – a palavra sim. N’ela brota, com as suas íntimas qualidades, com as suas contradições, (…) interna, íntima e (…) a alma do indivíduo. Ela, sim, revela tudo. O gesto, a expressão simbolizam a alma. A palavra é a própria alma, manifestando-se o mais materialmente que o pode fazer o que, de natureza, o não é.

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 46.
«History of a Dictatorship»

Fonte: Arquivo Pessoa

Da série: Fernando Pessoa (e seus eus) que poucos conhecem.

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