Marina Colasanti - foto: Marcos de Paula/Estadão

“Nunca imaginei chegar tão longe”

Marina Colasanti filha de italianos que nasceu na Eritreia (África, então uma colônia italiana) em 26 de setembro de 1937, se mudou para a Líbia, passou a infância na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, emigrou, aos 10, para o Rio (para o Parque Lage, onde vivia uma tia), voltou à Itália e de novo ao Brasil, morou na França e vive no Rio. Cada passo, cada olhar, cada mudança… tudo ficou marcado e foi importante na formação da autora, que é dona de um dos mais consistentes projetos literários do País. Casada com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Ela publicou 50 livros, entre conto, microconto, poesia para criança ou para adulto e tradução.

“Olho para trás e o que vejo me agrada. Vivi com abundância, a palavra melhor é essa. Abundância biográfica de países, de línguas e culturas. Abundância de situações, as favoráveis e as adversas. Abundância de encontros com pessoas preciosas, com criaturas admiráveis, e alguns poucos canalhas, úteis como referência. Trabalhei em muitas coisas diferentes e de todas gostei, porque de cada uma fiz um degrau de aprendizado que me permitiu desempenhar a próxima. Li quase todos os dias da minha vida, fosse pouco ou muito, enchendo a mochila de dados que eu embaralharia, de nomes que se iriam no vento, mas conservando as emoções que os livros me davam. Não escrevi tanto quanto li, nem teria sido possível. Mas o que escrevi está de acordo comigo e me representa mais generosamente que uma selfie.”

Assista aqui a escritora Marina Colasanti no vídeo gravado poucos meses antes dela completar 80 anos, em setembro deste ano (2017), no qual ela faz uma espécie de balanço de suas oito décadas de vida. Vale assistir cada segundo. Marina é encantadora na sua forma sensível e delicada de falar…

“80 anos são uma tremenda esquina da vida.
Com certeza chegamos a ela mais frágeis, porque a possibilidade de morte, que sempre foi a mesma mas que antes parecia eventual, ganha uma certa concretude. E, ao mesmo tempo, chegamos mais fortes porque a maior parte do caminho foi percorrida, as inseguranças da juventude ficaram para trás, alguma tantas perguntas já foram respondidas, e o que havia a fazer já foi feito…

Aos 80, considero todo dia como um presente dos deuses, embora até hoje não saiba quem são eles. E toda noite agradeço com gratidão, mesmo com a indecisão do endereço.”

Seguem também alguns trechos da entrevista da escritora  Marina Colasanti concedida a Maria Fernanda Rodrigues, do Estadão. em 5 de agosto de 2017:

Marina Colasanti – foto: Marcos de Paula/Estadão

80 anos em movimento. Tem sido uma boa vida?

Uma vida interessante, que nem sempre foi boa.

Por causa da guerra?

A guerra não foi tão difícil porque eu era criança. Depois, vieram os problemas na juventude: meus pais se separaram, a doença de minha mãe, a vida ficou um pouco puída, seu tecido ficou esgarçado. Um sentimento de solidão muito forte.

Como uma criança vive numa guerra. Tem consciência? O que ficou dessa experiência?

É treinada para ter consciência para que ela se proteja. Mas a infância tem uma força de vida tão grande que ela sobrevive. A gente brinca como se não estivesse na guerra, se diverte. Lembro de uma vez que ouvimos um barulho numa casa no meio de um parque enorme. Nossos pais tinham ido para cidade e saímos para caçar o inimigo – eu com seis anos, meu irmão com sete, minha prima com nove e a empregada quase da mesma idade da gente. Saímos armados de facões e rolo de fazer macarrão, e, em fila indiana, andamos em volta da casa para ver se tinha inimigo. Criança é criança. Por sorte, porque se não as crianças brasileiras das favelas não poderiam ser crianças e as crianças sírias também não. Perde-se a parte da proteção, mas não se perde a curiosidade, a capacidade de aprender e o desejo de viver.

Por que acha que é escritora?

Sempre desejei ser artista e a escrita como eu faço, a que me interessa, que não é só contar uma história, é a arte da palavra. Li muito na infância, na guerra, e ficou essa impossibilidade de viver sem livro. Não sei viver sem ler e, possivelmente, não sei viver sem escrever porque tenho diário desde os 9 anos. A minha relação com a vida é através da escrita.

As vivências na África, Itália e aqui contribuíram para que escrevesse histórias? Ou a herança de uma família artística foi decisiva?

Tudo foi importante. As vivências da infância são um pote enorme onde a gente enfia a mão toda vez que vai buscar uma sensação. Como é o sol na pele? Pum, lá vai a mão no pote procurar como eu senti a primeira vez que tive consciência do sol na pele. O tempo inteiro é isso. Os livros que li, a família artista, eu debruçada na prancheta do meu tio cenógrafo e figurinista. Tudo se funde.

Há várias maneiras de contar histórias para crianças e adolescentes e muitos seguem o caminho mais próximo do didático, pensando talvez nas vendas. O que deve ser essa literatura?

O que quero é emocionar, fazer pensar, deixar coisas em aberto, surpreender. Não quero dar o que querem porque isso não vai acrescentar nada: vai ser o que já conhecem. Quero dar literatura, ou seja, a palavra em vários níveis, contos com várias possibilidades de interpretação.

[…]

Do que sente saudade?

De um Brasil mais suave, da Ipanema que eu vivi, da praia em que nadei. Claro, a gente sente saudade das pessoas, mas isso é da ordem natural das coisas. Não sou saudosista da juventude. Não me queixo: acho minha idade ótima. Não tenho medo da morte, não quero viver muito. A cara era mais bonita antes, mas está bem assim. Ando viajando como uma louca, trabalhando como sempre, ou até mais. As filhas estão criadas. Quando temos filho pequeno ou desestabilizado, não podemos morrer. Eu posso, sem medo.

São tempos difíceis, de muito extremismo, muita raiva. A literatura pode ajudar a melhorar essa situação, as pessoas, o mundo?
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Shakespeare escreveu em 1500. Dante escreveu a Divina Comédia antes. E Homero, antes ainda. E nada mudou. Não acredito que a literatura mude a ordem das coisas. Ela muda os indivíduos – alimenta os indivíduos, dialoga com eles e os ajuda a dialogarem consigo mesmo. E indivíduos se juntam e fazem um partido, se juntam e impõem uma ditadura, fazem uma guerra. Há uma territorialidade e uma prepotência no ser humano, e a sede de poder, o egoísmo, a ferocidade e o sentimento de territorialidade conduzem o mundo mais do que sentimentos profundos individuais – os mais pessoais, íntimos, de ternura, de afeto, de projetos, de desejos, de irmandade e caridade. Eles acabam sendo sempre vencidos na história da humanidade.

– Marina Colasanti, em entrevista concedida à Maria Fernanda Rodrigues/Estadão. 5.8.2017. Reproduzida pela revista IstoÉ.

Saiba mais sobre Marina Colasanti:
:: Marina Colasanti (contos, poemas, crônicas e entrevistas)

É otimista?
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“Não, e nem pessimista. Leio a história e tiro algumas parcas conclusões. Não tenho a menor ideia do que vai acontecer amanhã. … […]. Sou um ponto de interrogação (risos)
– Marina Colasanti, em entrevista concedida à Maria Fernanda Rodrigues/Estadão. 5.8.2017.

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